Mendonça e Fux pedem ajuda à PF para acessar dados do celular de Vorcaro
Ministros disseram que os gabinetes ainda não conseguiram examinar os arquivos enviados e solicitaram apoio técnico e verificação do material.

BRASÍLIA. Os ministros André Mendonça e Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), informaram à Polícia Federal neste sábado, 19 de setembro, que ainda não conseguiram acessar os dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Em ofícios enviados ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, os gabinetes pediram auxílio técnico e uma verificação do material entregue, para esclarecer se a dificuldade está na operação dos arquivos ou em eventual problema físico na mídia.
A comunicação não afirma que os dados desapareceram, foram adulterados ou deixaram de ser fornecidos. O fato confirmado é mais restrito: segundo os ministros, seus gabinetes não conseguiram visualizar o conteúdo recebido. A CNN Brasil, que obteve o ofício de Mendonça, informou que ele solicitou apoio técnico e pediu à corporação que conferisse o estado real do material. Veja, CBN e Folha de S.Paulo também noticiaram a dificuldade de acesso.
No documento citado pela CNN, Mendonça registrou que o gabinete não obteve acesso efetivo ao conteúdo e que as informações permaneciam indisponíveis para exame. Fux comunicou dificuldade semelhante. A PF ainda precisa esclarecer a causa e orientar os gabinetes sobre o procedimento adequado para abrir e analisar os dados, etapa que pode envolver chaves de criptografia, programas específicos ou nova conferência das mídias fornecidas.
Arquivos foram entregues depois de pedidos ao STF
Mendonça e Fux solicitaram o material à Polícia Federal na quarta-feira, 16, e receberam as cópias na quinta-feira, 17, segundo a cobertura convergente dos veículos. O pedido ocorreu depois da sessão extraordinária do STF realizada na terça-feira, 15, convocada para discutir providências relacionadas a referências a autoridades em mensagens extraídas do aparelho de Vorcaro.
Veja informou que o conjunto compartilhado supera 500 gigabytes. A dimensão ajuda a explicar por que o acesso não se resume a abrir um documento comum: extrações forenses podem reunir bancos de dados, mensagens, anexos, registros técnicos e arquivos protegidos, cuja leitura depende de ferramentas e instruções compatíveis. Ainda assim, somente a PF poderá dizer se houve incompatibilidade técnica, defeito na mídia ou outra causa.
As cópias entregues a Mendonça e Fux integram o mesmo acervo que já havia sido disponibilizado a outros ministros. A CNN relatou que Cristiano Zanin e Gilmar Mendes receberam o material antes, após pedidos dirigidos à corporação. O compartilhamento passou a ser discutido dentro da Corte porque as mensagens mencionam magistrados, familiares de ministros e outras autoridades, em meio às investigações do caso Banco Master.
Dificuldade técnica não prova irregularidade
O pedido de suporte ocorre em um ambiente de forte disputa política e institucional, mas não autoriza concluir, por si só, que a Polícia Federal tenha omitido informações. Os próprios ofícios, conforme reproduzidos pelas reportagens, apresentam alternativas técnicas: pode haver dificuldade no modo de operação ou algum problema nos arquivos ou suportes enviados. A resposta da PF será necessária para definir qual hipótese se confirma.
Também é importante distinguir o aparelho original das cópias forenses. Reportagem anterior do UOL registrou que a PF informou ao STF que o celular e os dados originais permanecem sob sua guarda, com lacres e mecanismos de verificação de integridade. O que foi encaminhado aos ministros foi uma reprodução técnica do conteúdo, destinada à consulta nos gabinetes, e não o telefone apreendido.
O celular de Vorcaro ganhou relevância porque mensagens extraídas pela investigação passaram a revelar contatos do ex-banqueiro com personagens dos meios político, jurídico e empresarial. A existência de uma conversa, menção ou encontro, porém, não demonstra automaticamente crime. Cada registro precisa ser examinado no contexto da investigação, com possibilidade de manifestação das pessoas citadas e controle judicial sobre o uso da prova.
O que a Polícia Federal precisa responder
Os ofícios colocam quatro questões objetivas para a corporação: se as mídias entregues estão fisicamente íntegras; quais ferramentas são necessárias para a leitura; se há chaves, senhas ou instruções que ainda precisam ser fornecidas; e se será preciso produzir uma nova cópia. A solução deverá preservar a cadeia de custódia e permitir que os gabinetes confirmem que estão examinando o mesmo conteúdo extraído pelos peritos.
Se o problema for apenas de configuração, a PF poderá prestar assistência técnica sem alterar o material. Caso exista defeito na mídia, a alternativa tende a ser uma nova reprodução, acompanhada de registros de integridade. Em qualquer cenário, o apoio deve deixar documentados os procedimentos adotados, pois os arquivos podem subsidiar decisões judiciais e questionamentos das partes envolvidas.
Próximos passos
O próximo fato verificável será a resposta da Polícia Federal aos ministros. Até que a corporação faça o diagnóstico, não há base para atribuir responsabilidade pela indisponibilidade momentânea nem para afirmar que houve perda de dados. A expectativa é que técnicos da PF orientem os gabinetes ou refaçam o envio, se isso for necessário.
Depois do acesso, Mendonça e Fux poderão avaliar quais informações guardam relação com processos sob análise e quais providências são juridicamente cabíveis. O exame seguirá submetido ao sigilo aplicável, às regras de compartilhamento de prova e ao direito de defesa. O episódio, por ora, é uma solicitação formal de suporte técnico em um conjunto de dados volumoso e sensível, e não uma conclusão sobre o conteúdo do celular ou sobre a conduta das pessoas mencionadas.
Em resumo
Os ministros pediram auxílio técnico para acessar os dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro e a verificação do estado do material entregue.
Não há confirmação de perda. Os gabinetes relataram que não conseguiram visualizar o conteúdo das cópias recebidas.
Segundo as reportagens, os arquivos foram solicitados em 16 de setembro e entregues aos gabinetes no dia 17.
A Veja informou que o conjunto de arquivos supera 500 gigabytes.
Não. A Polícia Federal mantém o aparelho e os dados originais sob sua guarda; os gabinetes receberam cópias técnicas.
A PF deve diagnosticar a dificuldade, prestar suporte ou gerar nova cópia, preservando a integridade e a cadeia de custódia dos dados.