Mendonça pediu que o caso fosse à Presidência do STF. O motivo: votar na terça se abre investigação contra Moraes
Relatorias do Master e do INSS não foram cassadas. Foram remetidas para fechar brecha de nulidade. A sessão pública de terça deve exibir as mensagens com Vorcaro

No sábado, 12 de setembro de 2026, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, determinou que a Petição 16.662, o procedimento sobre as mensagens atribuídas a Alexandre de Moraes no celular de Daniel Vorcaro, fosse remetida à Presidência da Corte. No mesmo ato, pediu o envio dos autos das investigações do Banco Master e das fraudes no INSS. A Folha de S.Paulo estampou que Fachin “tirou” e “afastou” André Mendonça e “abre caminho para assumir” os inquéritos. O Globo, o UOL e a Veja repetiram o verbo da perda. Nas redes, muita gente gravou derrota antes de ler o despacho.
Quem pediu que a relatoria da parte relativa a ministro do STF fosse enviada à Presidência foi o próprio André Mendonça. O motivo é técnico: o processo envolve um ministro da Corte. O relator, nessa hipótese, não tem competência para julgar. Qualquer decisão dele agora abriria caminho para nulidade depois.
Esse é o ponto que a manchete de “tira” não cabe no primeiro parágrafo.
Resposta direta: André Mendonça perdeu as relatorias do Master e do INSS?
Não. Segundo o despacho descrito nesta matéria, os autos foram remetidos à Presidência do STF para a definição de competência e para evitar nulidade. A relatoria, por enquanto, continua com André Mendonça. Com a Petição 16.662 na Presidência, ele poderá votar no julgamento de terça-feira sobre a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes.
O que saiu e o que ficou
As relatorias do Master e do INSS não foram retiradas de Mendonça. Foram remetidas à Presidência. O que saiu de fato da pauta de terça foi só a fatia que diz respeito a Alexandre de Moraes. O restante dos procedimentos ficou suspenso até a Presidência decidir sobre competência. É o regimento funcionando. Não é golpe, não é pizza, não é derrota.
Desde o início, Mendonça trabalha para fechar brecha de nulidade. Gilmar Mendes, Moraes e outros ministros procuram vício nos atos do relator. Se o rito correto não for cumprido, sobra gente pronta para anular tudo depois. É isso que, no vocabulário da praça, vira “acabar em pizza”.
Com os autos na Presidência, Mendonça pode votar na terça se o plenário abre ou não investigação contra Moraes. Se o processo ficasse com ele, o relator ficaria impedido de votar, inclusive para abrir as apurações. Isso está escrito na decisão. O próprio Fachin disse ter pego a relatoria para permitir que Mendonça vote no caso.
A GloboNews, na edição das 20h de sábado, já dava um recorte mais preciso do que a Folha: os casos Master e INSS vão para a Presidência, ficam paralisados até nova decisão, e a relatoria, por enquanto, continua com André Mendonça. A diferença de verbo importa. “Remeter” não é o mesmo que “cassar”.
O acordo que a coluna chamou de cavalheiros
A Coluna do Estadão, sob a assinatura de Roseann Kennedy, publicou no mesmo sábado que a decisão de Fachin sobre a relatoria do caso Moraes “teve acordo com Mendonça”. O ministro “primeiro cedeu o processo atendendo pedido do presidente do STF”. Parte do despacho, no entanto, “provocou reações de surpresa na Corte”.
Hugo Freitas leu o “acordo de cavalheiros” de outra forma. Relatoria de processo não é propriedade do relator da qual ele possa dispor. O caso chegou por sorteio e deveria ficar até o fim. Investigado não escolhe o julgador. O presidente do STF, no mesmo raciocínio, não toma casos para si sem sorteio. A “crise” de que a imprensa fala, observou, não é o escândalo de suspeitas multimilionárias sobre ministros. É o desentendimento entre eles. Só assim um acordo de bastidor vira solução.
Rhea Toscano, no mesmo sábado, foi direta: o próprio Mendonça pediu. Moraes entrou com pedido de investigação contra Mendonça. Até que isso se decida, o procedimento precisa estar suspenso. Qualquer decisão do relator nesse intervalo poderia ser anulada.
O desencontro é este: o que o despacho faz e o que a manchete vende.
Como a grande imprensa emoldurou o sábado
A Folha, em 12 de setembro, usou “Fachin afasta Mendonça de caso contra Moraes e manda parar apurações de Master e INSS” e, em outra linha, “tira de Mendonça relatoria de caso Moraes e abre caminho para assumir inquéritos do Master e INSS”. O verbo é de destituir. O complemento é de absorção.
O Estadão, no blog de Fausto Macedo, foi mais seco: “Fachin assume relatoria do caso Moraes e pede envio de materiais do INSS e Master”. Mais cedo, Mendonça devolveu o processo. O jornal registrou o fato da remessa. A coluna da noite acrescentou o acordo.
O Globo, no mesmo dia: “Fachin assume relatoria de procedimento que envolve Moraes após Mendonça enviar processo”. O título admite a ordem dos atos. Mendonça enviou. Fachin assumiu. Dias antes, o mesmo jornal tinha estampado “Sob pressão, Fachin avalia substituir Mendonça em relatoria dos casos Master e INSS”. A pressão virou pauta. A remessa pedida pelo relator virou “assume”.
A Veja: “Fachin assume relatoria de processo sobre Moraes e avoca investigações do Master e INSS”. “Avoca” é palavra de quem toma para si. No corpo, o texto admite que Fachin não assumiu, neste momento, a relatoria das duas apurações. Ordenou remessa. A manchete já tinha feito o serviço.
O padrão se repete. O fato é remessa à Presidência e suspensão até decisão de competência, porque o caso toca ministro da própria Corte. O enquadramento é perda de Mendonça e avanço de Fachin sobre Master e INSS. Quem lê só o título entende que o relator foi desarmado. Quem lê o despacho entende que o relator se tirou do ponto em que qualquer ato seu nasceria morto.
A regra é uma só e deveria valer para os dois lados da Corte. Processo que envolve ministro do STF não fica com relator sujeito a impedimento. Quem pede a remessa à Presidência para votar no mérito precisa ter o pedido lido como pedido, não como humilhação. Quem recebe a relatoria na Presidência precisa decidir competência sem transformar o gabinete em refúgio do investigado.
O que terça põe na mesa
A sessão de terça-feira, 15 de setembro, é pública e transmitida. O plenário vai ter de olhar as mensagens que Alexandre de Moraes teria trocado com Vorcaro. Não é previsão de resultado. É o fato de o colegiado, em aberto, ter de examinar o material que Mendonça tirou de sigilo no começo do mês e que a PF extraiu do celular do banqueiro.
Fachin manteve na pauta só o julgamento sobre o relatório das mensagens Vorcaro-Moraes. Negou, nesta rodada, o pedido de Gilmar Mendes para colocar junto a investigação contra Mendonça. Esse outro caso foi para 23 de setembro. A delimitação do objeto, no texto do presidente, serve para o plenário apreciar matéria cujo contraditório já se aperfeiçoou. Serve também para separar o que é voto sobre Moraes do que é voto sobre o relator.
Com a relatoria da Pet 16.662 na Presidência, Mendonça deixa de ser o dono do processo e passa a ser ministro votante. Sem a remessa, o relator estaria amarrado. Com a remessa, ele entra no colegiado. Quem transformou isso em “Mendonça perdeu a relatoria” inverteu o efeito prático do ato.
Like, desânimo e o povo no meio
Chega de “ganhamos tudo, perdemos tudo”. Chega de gravar desânimo para ganhar like. Quem lê regimento, procedimento e decisão sabe: não acabou. Só avançou.
O tom se conhece. Manchete de derrota no sábado. Sessão pública na terça. Material de celular no telão. Depois, se o voto não vier no volume esperado, a mesma praça declara pizza. Se vier, declara virada. O jornalismo que se preza descreve o rito antes de vender o placar.
Folha, Estadão, O Globo e Veja têm o dever de estampar o verbo certo: remeteu, suspendeu, vai votar. “Tirou”, “afastou” e “avocou” são escolha de enquadramento. O leitor paga a conta dessa escolha no comentário, no compartilhamento e na pressa de declarar o jogo encerrado num sábado à noite.
Terça o plenário entra no ar. As mensagens entram no ar. O voto de Mendonça, se o rito que ele próprio pediu se confirmar, também entra no ar. Até lá, o que está documentado é isto: a relatoria da fatia Moraes foi para a Presidência a pedido do relator, para não nascer nula e para não calar o voto de quem conduziu o caso até aqui. O resto é título.
Em resumo
Não. Os autos foram remetidos à Presidência do STF para a definição de competência e ficaram suspensos até nova decisão. Segundo o despacho descrito na matéria, a relatoria continua, por enquanto, com André Mendonça.
Porque o procedimento envolve um ministro do próprio STF. A remessa busca evitar questionamento de competência e eventual nulidade, além de permitir que Mendonça participe como votante do julgamento.
O plenário deve examinar o relatório sobre mensagens atribuídas a Alexandre de Moraes no celular de Daniel Vorcaro e decidir sobre a abertura de investigação. O procedimento contra André Mendonça foi separado e marcado para 23 de setembro.
Não é o que o ato descrito na matéria registra. Fachin determinou a remessa dos autos à Presidência e a suspensão dos procedimentos até a definição de competência. Remessa não equivale, por si só, à cassação da relatoria.