Política Nacional · 2026-09-12 · Redação Notícia ES

Mesma sala, mesmo crime? ICL transforma coworking de capacete em QG do INSS e a esquerda corre para o STF

Endereço cadastral no Connect Towers vira “conexão direta” da família Bolsonaro com o Careca. No prédio, a porta 2601 estava fechada. O advogado falou em coworking. A viagem de Lulinha em primeira classe, paga pelo mesmo operador, saiu com outro verbo.

Mesma sala, mesmo crime? ICL transforma coworking de capacete em QG do INSS e a esquerda corre para o STF
Mesma sala, mesmo crime? ICL transforma coworking de capacete em QG do INSS e a esquerda corre para o STF

Na sexta-feira 11 de setembro de 2026, o ICL Notícias publicou uma “exclusiva” assinada por Alice Maciel: a Bravo Grafeno, empresa de capacetes com Flávio Bolsonaro e Carlos Bolsonaro no quadro, está registrada na sala 2601, bloco D, do Edifício Connect Towers, em Águas Claras, no Distrito Federal, o mesmo endereço cadastral de pelo menos 16 empresas ligadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. O texto soma a isso o contador Alexandre Caetano dos Reis, da Voga Serviços Contábeis, preso desde dezembro de 2025 e sócio do Careca numa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. A conclusão do portal não espera prova de caixa: “Esta revelação conecta diretamente a família Bolsonaro ao Careca do INSS.”

O perfil @NewsLiberdade emplacou o recorte no X no mesmo dia, com alerta de “AGORA”, foto e a fórmula pronta para viralizar: mesma sala, mesmo contador, 16 empresas do Careca. Em poucas horas o post passou de 299 mil visualizações. A cadeia seguinte foi previsível. Brasil de Fato, CartaCapital, Opera Mundi, Diário do Centro do Mundo, Hora do Povo, Bahia Notícias e a Rede TVT repetiram o recorte. Erika Hilton anunciou que pediria ao ministro André Mendonça a inclusão de Flávio no inquérito do INSS. Lindbergh Farias pediu investigação à PGR. O fato virou peça de campanha antes de virar peça de processo.

O que existe, e precisa ser dito sem anestesia, é isto. A Bravo Grafeno foi aberta em junho de 2024, com capital social de R$ 100 mil. Vende capacete a R$ 598,90 e viseira a R$ 54. Jair Bolsonaro é garoto-propaganda. O domínio do site foi registrado em nome de Flávio. O endereço da Receita e o endereço do site apontam para a 2601. Alexandre Caetano dos Reis presta serviço à Bravo e ao escritório de advocacia do senador. A irmã dele, Letícia Caetano dos Reis, figura como administradora da banca. Willer Tomaz, que indicou Letícia ao escritório, tem procuração para defender Alexandre no inquérito do INSS. Nada disso é invenção do ICL. Parte já tinha saído em julho de 2026, em notas fiscais com o e-mail da Voga no cabeçalho do escritório de Flávio, reportadas por Metrópoles, ND Mais e O Antagonista.

O que o ICL e o recorte do NewsLiberdade fazem com esses dados é outra operação.

A porta fechada e a palavra que o título escondeu

A reportagem foi ao prédio na manhã de 11 de setembro, por volta das 10h30. Na portaria, uma funcionária disse que a 2601 era ocupada pela Voga. No 26º andar a Voga ocupa várias salas e recebe visita na 2603. O advogado Thalles Setúbal confirmou serviço à empresa de Flávio e negou que a 2601 pertença à contabilidade. Disse que ali funciona um coworking de outros donos. A jornalista bateu na 2601. Estava fechada. Funcionários no corredor mandaram procurar a recepção da Voga. Setúbal, perguntado sobre a relação com o senador e com a PF, respondeu: “A gente se posiciona nos autos, não com imprensa.”

O título do ICL não fala em endereço cadastral. Fala em “dividem na mesma sala”. O post do NewsLiberdade copia o gancho. Coworking some da manchete. Porta fechada some da manchete. “Outros donos” some da manchete. Em agosto de 2024 a própria Veja já havia descrito a sede da Bravo como escritório num coworking a 25 quilômetros do centro de Brasília, capital de R$ 100 mil, venda de capacete e acessório. A “sala compartilhada” não nasceu em setembro de 2026. Nasceu no modelo de endereço virtual que Brasília usa para firma pequena, firma de fachada e firma que só precisa de CNPJ. Misturar os três no mesmo parágrafo sem mostrar um real da Prospect na conta da Bravo é o pulo.

A Prospect Consultoria Empresarial, uma das empresas do Careca no mesmo cadastro, recebeu R$ 204,2 milhões de nove entidades alvo da CPMI do INSS, segundo o relatório final da comissão: R$ 115,9 milhões da Unaspub, R$ 27,1 milhões da Ambec, R$ 19,8 milhões da CBPA. O Careca está preso na Papuda desde setembro de 2025. Alexandre está preso desde dezembro. O esquema de descontos irregulares, nas contas usadas pelo ICL, rodou de 2019 a 2024 e lesou mais de 4,3 milhões de beneficiários, com prejuízo citado de R$ 2 bilhões. Outras contas da CPMI e da CGU falam em escala maior. Nenhuma dessas linhas, no material publicado pelo ICL, mostra transferência da Prospect, da Brasília Consultoria ou de qualquer CNPJ do Careca para a Bravo Grafeno. A empresa de capacete aparece como registro no mesmo CEP fiscal. O crime, no texto, entra por contiguidade.

Contiguidade não é irrelevante. Merece pergunta, mereceria nota fiscal cruzada, mereceria a PF dizer se a 2601 foi usada como caixa ou só como etiqueta na Receita. O jornalismo acaba quando a etiqueta vira QG e o QG vira participação no rombo.

O caso que já estava nos autos e saiu com outro dicionário

Em novembro de 2024, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, embarcou com o Careca no voo Latam JJ-8148, Guarulhos-Lisboa. Documentos da PF colocam o Careca no assento 3A e Lulinha no 6J, ambos na primeira classe. A defesa de Lulinha admitiu ao ministro André Mendonça, em março de 2026, que Antônio Camilo pagou passagem e hospedagem. A versão oficial: convite para conhecer extração de canabidiol e fábrica de cannabis medicinal em Portugal, sem contrato, sem cota, sem lobby na Anvisa ou no Ministério da Saúde. O advogado Marco Aurélio Carvalho disse à GloboNews que Lulinha conheceu o empresário por Roberta Luchsinger e “demonstrou uma curiosidade”.

O Estadão publicou que Lulinha admitiu a interlocutores o voo e o hotel pagos. A Folha tituleou a ida ao STF com o verbo da defesa: o Careca “pagou viagem”, a defesa “admite”. O G1 repetiu a fábrica de cannabis e a negativa de negócio fechado. A PF já tinha, desde o depoimento do ex-funcionário Edson Claro, a viagem, a conversa sobre “filho do rapaz” e a narrativa de pagamentos de R$ 300 mil. A defesa nega que Lulinha seja o “filho do rapaz”. Até aqui a Corte e a PF não apresentaram sentença ligando o filho do presidente ao desconto no contracheque do aposentado. O ponto não é inventar essa sentença. O ponto é o verbo.

Quando o filho do presidente senta na primeira classe com o operador e a passagem sai da conta do operador, a grande imprensa escreve “admite”, “defesa confirma”, “não rendeu contrato”. Quando o filho do ex-presidente registra uma loja de capacete de R$ 100 mil num coworking que o Careca usou como endereço de 16 CNPJs, o ICL escreve “conecta diretamente”. O NewsLiberdade transforma o parágrafo em sirene. Hilton e Lindbergh protocolam. A régua não mede o mesmo metro.

O esquema do INSS atravessou o governo Bolsonaro e o governo Lula. Quem quiser honestidade precisa dizer as duas coisas na mesma frase. Há ex-ministro do período anterior citado nas apurações. Há o operador solto e viajando com o filho do presidente em novembro de 2024, já no atual governo. Há o contador do núcleo prestando serviço a um escritório de oposição. Investigar os três fios é jornalismo. Escolher um fio na véspera eleitoral e batizar de “QG” é outra indústria.

Quem produz o pacote e quem lucra com o eco

O ICL não é Folha, Estadão, Globo nem Veja. É o Instituto Conhecimento Liberta, criado em 2020 por Eduardo Moreira, Rafael Donatiello e Jessé Souza, plataforma que se declara no campo progressista, contra o neoliberalismo, sem “neutralidade forçada”. Em 2024 Felipe Neto entrou no conselho. A grade reúne nomes da esquerda jornalística. O portal vive de assinatura e de tese. Tem o direito de ter tese. Não tem o direito de vender tese como laudo pericial.

A grande imprensa tradicional, nesta rodada de 11 de setembro, não liderou a bomba. Reciclou o ICL em sites menores e em portais de militância. CartaCapital, Brasil de Fato e Opera Mundi repetiram “mesmo endereço” e, no miolo, às vezes cabia o coworking do advogado. No título, quase nunca. Veja, que em 2024 descreveu a Bravo como coworking de R$ 100 mil, não apareceu nesta leva como âncora da “mesma sala”. O silêncio e o eco também são escolha.

Interesse documentável do pacote: eleitoral. Flávio é pré-candidato a presidente. Carlos disputa o Senado em Santa Catarina. A reportagem sai numa sexta. No sábado Hilton já pede inclusão no inquérito de Mendonça. O ICL publica o desdobramento no próprio site. O ciclo se alimenta. Não é preciso inventar “ordem do PT”. Basta ver quem protocola e quem titula.

Há um segundo interesse, mais antigo. Desde 2025 a oposição tenta colar Flávio no Banco Master e no INSS com foto, nota fiscal e, em pelo menos um caso, imagem de inteligência artificial. Em março de 2026 a Justiça de Brasília mandou excluir posts que colocavam Flávio, Vorcaro e o Careca na mesma foto de inauguração do Master em 2021. A juíza escreveu que a conduta saía da crítica ácida e se apoiava em suporte fático provavelmente falso. A peça de IA caiu. O endereço da 2601 é suporte real. A colagem mental que transforma 2601 em participação no R$ 2 bilhões é o mesmo método com documento verdadeiro no lugar do pixel falso.

O que a Bravo é, e o que ainda ninguém mostrou

Sócios da Bravo, além de Flávio e Carlos: Pedro Luiz Dias Leite, Paulo Giordano Bernardi e Fernando Nascimento Pessoa, ex-assessor investigado na rachadinha do gabinete de Flávio no Rio. O ICL amarra Pessoa à rachadinha e Leite a um sócio do marqueteiro Marcelão, citado no inquérito do filme Dark Horse. São biografias que um candidato precisa explicar. Não são prova de que o capacete de grafeno financiou associação de aposentado.

Flávio, em declarações anteriores, negou envolvimento no escândalo do INSS. Até o fechamento da matéria do ICL, segundo o próprio portal, não havia se pronunciado sobre a 2601. A defesa do Careca também não falou. Espaço aberto não substitui o dever de quem acusa: apontar o dinheiro, a ordem, a planilha. A Voga no e-mail do escritório de advocacia é fato velho de julho. A 2601 como etiqueta de 16 CNPJs do Careca é fato novo de cadastro. Nenhum dos dois, sozinho, prova que o senador operou o desconto no benefício.

Coworking em Águas Claras não é altar. Contador que atende político e também atende investigado não é detalhe. Irmã do contador no escritório do senador não é detalhe. Indicação via Willer Tomaz não é detalhe. Quem defende Flávio e quiser credibilidade responde isso com papel, não com grito de perseguição. Quem acusa Flávio e quiser credibilidade mostra o fio até o INSS, não a placa no hall.

A regra que some quando o alvo muda de sobrenome

Se endereço compartilhado e contador comum bastam para “conectar diretamente” um presidenciável a um esquema de R$ 2 bilhões, a mesma frase vale para o filho do presidente que voou na primeira classe com o operador, hotel pago, fábrica visitada, mensagens de “filho do rapaz” nos autos. Ou vale para os dois, ou não vale para nenhum.

Se a visita ao prédio mostra porta fechada e advogado falando em coworking de terceiros, o título honesto é “mesmo cadastro na Receita, contador preso no mesmo núcleo, empresa de capacete de R$ 100 mil”. Não é “dividem a mesma sala” como quem divide mesa, cofre e planilha.

Se a Operação Sem Desconto e a CPMI existem para proteger o aposentado, o critério é o fluxo do desconto, não o calendário da pré-campanha. Hilton pode pedir a Mendonça o que quiser. Mendonça, se for juiz e não ator, aplica ao Bolsonaro e ao Silva a mesma exigência de indício. A PGR também.

O jornalismo brasileiro passou os últimos anos treinando o leitor a aceitar dois pesos. Para um lado, a proximidade é “contexto” e a viagem paga é “curiosidade”. Para o outro, o CNPJ no mesmo andar é prova moral de bando. O ICL fez o segundo movimento com competência de pauta. O NewsLiberdade fez o recorte de rede. Os sites de militância fizeram o coro. O aposentado que perdeu o desconto no contracheque continua sem saber, por essa matéria, se um real da Prospect pagou um capacete Bravo.

Enquanto isso não aparecer, o que se tem é um endereço, um contador, uma porta fechada e uma eleição. O resto é verbo. E verbo, neste país, já virou sentença antes do inquérito terminar.

Em resumo

O que o ICL apontou sobre a Bravo Grafeno?

A reportagem apontou que a empresa está registrada na sala 2601 do Connect Towers, endereço cadastral também usado por empresas ligadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS.

O que o advogado Thalles Setúbal disse sobre a sala 2601?

Segundo o texto, ele negou que a sala pertença à Voga e afirmou que ali funciona um coworking de outros donos.

A matéria apresentada mostra transferência de empresas do Careca para a Bravo Grafeno?

Não. O texto afirma que, no material publicado pelo ICL, não foi mostrada transferência da Prospect, da Brasília Consultoria ou de outro CNPJ do Careca para a Bravo Grafeno.

Qual paralelo a matéria faz com Lulinha?

O texto compara o tratamento dado ao endereço cadastral da Bravo com a cobertura da viagem de Lulinha em primeira classe ao lado do Careca do INSS, com passagem e hospedagem pagas pelo empresário, segundo a defesa.