Ministro de El Salvador vira referência para candidatos de direita em evento em São Paulo
Gustavo Villatoro participou de eventos com políticos brasileiros e defendeu o modelo de segurança do governo Nayib Bukele, marcado por prisões em massa e regime de exceção.

O ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, tornou-se uma das figuras mais disputadas por candidatos de direita durante passagem por São Paulo nesta semana. O auxiliar do presidente Nayib Bukele participou de evento na Fiesp e de um jantar promovido pela Brasil Paralelo, onde políticos brasileiros buscaram aproximação e destacaram o modelo salvadorenho de combate às facções.
Villatoro é um dos principais responsáveis pela política de segurança de Bukele, baseada em estado de exceção, ampliação do encarceramento e enfrentamento direto às gangues que dominaram partes do país por décadas.
Modelo Bukele ganhou espaço no debate eleitoral
No Congresso Fiesp de Segurança Pública, realizado em 31 de agosto, o ministro defendeu a estratégia adotada em El Salvador e criticou organizações internacionais de direitos humanos. A apresentação foi recebida com elogios por parte de políticos e representantes empresariais presentes.
O senador Sergio Moro, candidato ao governo do Paraná, afirmou que pretende criar um presídio estadual de segurança máxima e chegou a dizer que a unidade teria o nome “El Salvador”. O deputado Guilherme Derrite, candidato ao Senado por São Paulo, também participou do evento.
A defesa do modelo ocorre em uma eleição em que segurança pública é um dos principais temas nacionais. Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos já fizeram referências favoráveis a aspectos da política de Bukele em seus discursos ou programas.
Resultados e controvérsias caminham juntos
El Salvador registrou uma queda expressiva nos homicídios durante o governo Bukele, resultado usado por seus apoiadores como prova de eficácia. Ao mesmo tempo, organizações como Human Rights Watch e Anistia Internacional denunciam prisões arbitrárias, suspensão prolongada de garantias e violações de direitos fundamentais.
O estado de exceção está em vigor desde 2022 e permitiu detenções em larga escala. O governo salvadorenho afirma que a medida foi necessária para desmontar estruturas criminosas e recuperar territórios controlados por gangues.
Críticos sustentam que a política enfraqueceu controles institucionais e levou pessoas sem ligação com facções à prisão. A controvérsia é central para qualquer tentativa de importar o modelo para o Brasil.
Constituição brasileira impõe limites diferentes
O promotor Lincoln Gakiya, conhecido pela atuação contra o PCC, chamou atenção durante o evento da Fiesp para as diferenças jurídicas entre os dois países. Ele lembrou que medidas semelhantes exigiriam mudanças constitucionais e advertiu contra soluções simplificadas para problemas complexos.
O Brasil possui garantias processuais, estrutura federativa e sistema judicial distintos. Segurança pública é dividida entre União, estados e municípios, enquanto medidas de exceção têm requisitos constitucionais específicos.
Passagem também teve encontro com Flávio Bolsonaro
Villatoro encontrou Flávio Bolsonaro durante sua visita ao Brasil. O candidato do PL tem defendido aumento do número de vagas prisionais e endurecimento de regras contra organizações criminosas.
O contato reforça a importância simbólica de El Salvador na campanha da direita. Bukele construiu uma imagem internacional associada à queda da violência e à disposição de confrontar estruturas tradicionais, tornando-se referência para candidatos que prometem políticas mais duras.
Segurança deve permanecer no centro da eleição
A passagem de Villatoro por São Paulo mostra que a discussão eleitoral não ficará restrita a propostas nacionais já conhecidas. Modelos estrangeiros estão sendo usados como referência para construir narrativas de campanha.
O desafio para os candidatos será explicar quais medidas poderiam ser aplicadas dentro da legislação brasileira, quais custos teriam e quais mecanismos seriam usados para impedir abusos.
Os resultados de El Salvador são politicamente atraentes para quem defende combate mais duro ao crime. As críticas de entidades internacionais e especialistas, porém, obrigam o debate a considerar também os limites constitucionais e os riscos de replicar uma política de exceção em um país com dimensões e instituições muito diferentes.