Política Nacional · 2026-09-03 · Redação Notícia ES

Moraes usa inquérito das fake news contra Mendonça após exposição do caso Vorcaro

Dois dias depois de Mendonça tirar o sigilo das mensagens de Vorcaro e dos contratos da família Moraes com o Master, o relator do inquérito 4.781 inclui o colega na apuração e pede investigação por abuso de autoridade. Mendonça reage e cobra de Fachin o afastamento cautelar de Moraes.

Moraes usa inquérito das fake news contra Mendonça após exposição do caso Vorcaro
André Mendonça e Alexandre de Moraes no plenário do STF.

Alexandre de Moraes não abriu uma apuração. Ele usou o inquérito que carrega no bolso desde 2019 para virar o jogo contra o colega que tirou o sigilo das mensagens dele com Daniel Vorcaro.

Na quinta-feira, 3 de setembro, Moraes encaminhou a Edson Fachin uma decisão de cerca de 20 páginas, tomada no Inquérito 4.781, o chamado inquérito das fake news. Pediu providências contra André Mendonça por improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. O texto fala em parcialidade, usurpação de competência, interferência nas tratativas de delação e “direcionamento de alvos” nas operações Sem Desconto, do INSS, e Compliance Zero, do Banco Master.

O calendário importa mais do que o vocabulário jurídico.

No dia 1º, Mendonça, relator desses dois casos, tirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal sobre o celular de Vorcaro. O documento mostra o banqueiro, preso em novembro de 2025 quando tentava embarcar rumo ao exterior, tratando Moraes como interlocutor de confiança. Há mensagem de 15 de novembro perguntando se “segunda já tenho que estar fora”. Há pedido para interceder junto a Paulo Gonet e Andrei Rodrigues. Há o trecho em que Vorcaro fala em “dívida de vida” com Moraes e a família. A perícia recuperou o que o banqueiro escreveu no bloco de notas e mandou por visualização única. As respostas de Moraes não vieram.

No mesmo pacote estão os contratos. O escritório Barci de Moraes, da esposa Viviane, fechou com o Master e empresas de Vorcaro acordos que, somados, chegam a R$ 208 milhões: um de R$ 108 milhões em 36 parcelas de R$ 3 milhões líquidos com o banco, e outros dois de R$ 50 milhões cada com a Viking Participações. A Receita, em dados levados à CPI do Crime Organizado, registrou R$ 80,2 milhões efetivamente pagos em 22 meses. A PF aponta ainda cartões de crédito do Master para os filhos do casal, cotas de aeronave e helicóptero e viagens. Em uma minuta, o último editor do arquivo aparece como “Ministro Alexandre de Moraes”.

Dois dias depois dessa exposição pública, Moraes puxa o inquérito das fake news e inclui o relator que o expôs.

A reação de Mendonça

Mendonça não ficou em silêncio. Minutos depois de tomar conhecimento da decisão, procurou Fachin. Segundo a jornalista Natuza Nery, da GloboNews, o ministro estava revoltado e defendeu o afastamento imediato de Moraes, em caráter cautelar, com posterior submissão ao plenário. O Brasil 247 publicou o mesmo recado na noite de 3 de setembro. Até agora não há despacho público de Mendonça formalizando o pedido. O que existe, documentado, é o recado verbal ao presidente da Corte e a tensão que isso jogou para dentro do gabinete da presidência.

Fachin, no mesmo dia, abriu procedimento próprio. Determinou que Moraes, Mendonça, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues prestem esclarecimentos por escrito em até cinco dias úteis. É o movimento de quem tenta segurar a Corte no papel, enquanto os dois ministros já se tratam como adversários de processo.

O recado de Mendonça é direto. Quem publicou o relatório Vorcaro não aceita virar réu no inquérito que Moraes usa há sete anos para definir quem ofende o Supremo. A resposta dele não foi nota institucional. Foi pedir a cabeça do colega na mesa de Fachin.

O que a grande imprensa fez com o fato

O Globo abriu com a tese da Polícia Federal contra Mendonça: o ministro teria “efetiva participação nas tratativas de colaboração premiada” do Master e do INSS. Veja e Valor trataram o despacho como crise institucional e pedido de investigação de um colega. A Folha, no dia anterior, já havia publicado que “especialistas veem irregularidades” na atuação de Mendonça e comparado o relator a Sergio Moro e ao próprio Moraes.

O verbo pesa para um lado. Mendonça “interfere”, “extrapola”, “atua como investigador”. Moraes “pede providências”, “encaminha relatório”, “reage”. O contrato de R$ 208 milhões, os cartões dos filhos e a pergunta “já tenho que estar fora?” viram pano de fundo. A peça de 3 de setembro vira o centro. A ida de Mendonça a Fachin pedindo afastamento, quando aparece, entra como “clima de guerra”, não como resposta de quem acabou de ser enquadrado no inquérito sem fim.

O caso espelho

O Inquérito 4.781 nasceu em 14 de março de 2019. Dias Toffoli abriu de ofício, sem pedido da PGR, e entregou a relatoria a Moraes sem sorteio. O objeto era ofensa à “honorabilidade e à segurança” do STF. Moraes era, ao mesmo tempo, relator e parte interessada. Sete anos depois o inquérito segue aberto. Já engoliu parlamentares, jornalistas, empresários, pastor, auditor da Receita e o próprio Jair Bolsonaro. A OAB pediu o encerramento em 2026, falando em elasticidade excessiva do objeto. Três ministros, em off ao Estadão, já descreveram o inquérito como escudo da Corte.

A acusação que Moraes agora formula contra Mendonça é, ponto a ponto, o método que ele mesmo praticou nesse inquérito: juiz que determina diligência, escolhe alvo, manda a PF produzir relatório, junta o material no próprio gabinete e decide o destino do investigado. Quando o alvo é blogueiro, deputado ou pastor, Folha e Globo chamam isso de defesa da democracia. Quando o alvo é o ministro que publicou o relatório Vorcaro, a mesma conduta vira crime de responsabilidade.

Há outro espelho mais curto. A PGR e o grupo alinhado a Moraes sustentam que Mendonça não poderia mandar a PF identificar interlocutores com foro no STF sem o plenário. O mesmo grupo conviveu, por anos, com Moraes determinando busca, quebra de sigilo e inclusão de investigado no 4.781 sem passar pelo colegiado. A regra muda conforme o sobrenome no cabeçalho.

Quem é Moraes neste enredo

Alexandre de Moraes chegou ao STF em 2017, indicado por Michel Temer, depois de passar pelo Ministério da Justiça e pela Secretaria de Segurança de São Paulo. No tribunal, acumulou o inquérito das fake news, o inquérito do 8 de Janeiro e a presidência do TSE. Construiu um modelo de investigação permanente em que o gabinete funciona como central de inteligência: determina, recebe, classifica e pune. Censura de contas, monitoração eletrônica, prisão de parlamentares e bloqueio de redes saíram desse mesmo escritório.

No caso Master, o problema não é só proximidade social com um banqueiro. É o cruzamento de três coisas no mesmo período: contrato milionário da família com o banco investigado, encontros presenciais em Brasília e São Paulo, e mensagens em que o investigado pede intercessão política e avalia fuga do país. Nada disso foi produzido por “milícia digital”. Saiu de perícia em aparelho apreendido e de declaração do próprio banco à Receita.

A articulação de 3 de setembro é simples. Mendonça publicou o que a PF já tinha no celular de Vorcaro e empurrou o caso para o plenário, em sessão presencial. Moraes respondeu no terreno em que é dono do mapa: o inquérito sem fim, agora usado para criminalizar o relator e, de quebra, insinuar que Davi Alcolumbre também seria “alvo estratégico” por controlar pauta de impeachment no Senado. Quem controla o 4.781 controla a narrativa de quem é ameaça à Corte. Quem ameaça a Corte, neste desenho, passou a ser o colega que tirou o sigilo.

Mendonça leu o recado e devolveu na mesma moeda. Foi a Fachin pedir o afastamento de Moraes. Um usa o inquérito das fake news. O outro usa a presidência da Corte. Os dois já sabem que o próximo capítulo não é só jurídico. É de sobrevivência dentro do tribunal.

O interesse que não cabe em nota de rodapé

O escritório da família faturou, em pouco mais de um ano e meio, dezenas de milhões de um banco que a PF descreve como esquema de fraude. O ministro editou minuta de contrato, segundo a perícia. O banqueiro pediu proteção política dois dias antes da prisão. O relator que tornou isso público virou investigado no inquérito criado para proteger ministros de “notícias fraudulentas”. E, ao ser incluído, foi ao presidente do STF pedir a queda de quem o acusou.

Globo, Folha, Estadão e Veja têm acesso permanente a gabinetes do STF. Vivem de furo institucional. Quando o furo fere Moraes, o enquadramento vira “crise entre ministros” e “excesso de Mendonça”. Quando o mesmo método é aplicado contra a direita, o enquadramento vira “combate à desinformação”. A assimetria não é acidente de pauta. É escolha de quem ainda precisa da porta do gabinete.

A regra que deveria valer para os dois é a mais óbvia do processo penal brasileiro. Juiz não investiga o próprio interesse. Inquérito sem objeto delimitado, sem prazo e sem sorteio não serve para defender a Corte. Serve para blindar quem está dentro. Se a conduta de Mendonça na relatoria do Master merece escrutínio do plenário, a conduta de Moraes no 4.781 e no relacionamento com Vorcaro merece o mesmo plenário, a mesma publicidade e o mesmo rigor. Qualquer coisa diferente disso é o inquérito das fake news fazendo o que sempre fez: escolher o réu.

Em resumo

O que aconteceu?

Alexandre de Moraes usou o Inquérito 4.781, o inquérito das fake news, para pedir a Edson Fachin a investigação de André Mendonça por improbidade, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. A decisão veio dois dias depois de Mendonça retirar o sigilo do relatório da PF sobre mensagens de Daniel Vorcaro e contratos da família Moraes com o Banco Master. Mendonça reagiu e cobrou de Fachin o afastamento cautelar de Moraes.

Quem está envolvido?

Alexandre de Moraes, André Mendonça, Edson Fachin, Daniel Vorcaro, Viviane Barci de Moraes, Paulo Gonet, Andrei Rodrigues e Davi Alcolumbre.

Onde aconteceu?

No Supremo Tribunal Federal, em Brasília, no Inquérito 4.781 e nas relatorias das operações Sem Desconto e Compliance Zero.

Quando aconteceu?

Mendonça retirou o sigilo do relatório da PF em 1º de setembro de 2026. Moraes despachou contra Mendonça em 3 de setembro de 2026. No mesmo dia, Mendonça procurou Fachin e o presidente da Corte abriu prazo de cinco dias úteis para esclarecimentos.

Por que isso importa?

O relator do inquérito das fake news, que também é parte interessada no caso Master, usou a própria investigação permanente da Corte para atingir o ministro que tornou públicos contratos de R$ 208 milhões e mensagens em que Vorcaro pede proteção e avalia deixar o país. A manobra transforma o inquérito criado em 2019 para “proteger” o STF em instrumento de retaliação interna.

O que acontece agora?

Fachin determinou que Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues se manifestem por escrito em até cinco dias úteis. Cabe à presidência da Corte decidir se o caso vai a plenário e se há afastamento cautelar. O pedido verbal de Mendonça por afastamento de Moraes ainda não aparece como despacho público.

Fontes