Política ES · 2026-10-18 · Redação Notícia ES

Na Argentina é fracasso, no Brasil é estatística

O uso de critérios distintos para avaliar os indicadores econômicos distorce a comparação entre os governos Milei e Lula

Na Argentina é fracasso, no Brasil é estatística
Na Argentina é fracasso, no Brasil é estatística

Esse perfil é dedicado ao grupo de redatores da Revista Oeste. Eles são os responsáveis pela produção dos textos que vão ao ar.

• Fechamentos de empresas não definem sucesso ou fracasso

• Fechamentos de empresas não definem sucesso ou fracasso econômico; • Autor distingue a redução de empregadores do total de negócios encerrados; e • Artigo defende critérios para comparar a dinâmica empresarial e as políticas econômicas.

A redução de 32 mil empresas empregadoras na Argentina desde a posse de Javier Milei, em dezembro de 2023, tem sido utilizada por eleitores de Lula como demonstração do fracasso da política econômica argentina.

O passo seguinte foi transportar o argumento para a eleição presidencial brasileira: uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), acompanhada da adoção de políticas semelhantes às de Milei, provocaria aqui a mesma destruição de empresas e empregos.

O que os documentos mostram

O número é real. Segundo os registros da Superintendência de Riscos do Trabalho da Argentina, o país tinha quase 520 mil empregadores registrados em novembro de 2023, antes da posse de Milei.

Em julho de 2026, eram cerca de 480 mil, uma redução de 6,3%. O que não se esclarece é que esses 32 mil representam a redução líquida do estoque de empregadores e não o número total de empresas fechadas.

Durante esse período, empresas encerraram suas atividades, outras foram criadas e algumas podem simplesmente ter deixado de manter empregados registrados.

Contudo, a questão principal é outra. O fechamento de empresas é necessariamente uma demonstração de fracasso econômico? E, se for, por que o mesmo critério não é aplicado ao Brasil?

A Argentina que Milei herdou era uma economia submetida a décadas de intervencionismo, controles cambiais, restrições às importações, impostos sobre exportações, subsídios e gastos públicos muito acima da sua capacidade de financiamento.

Muitas empresas desenvolveram suas atividades nesse ambiente fechado, sem enfrentar a concorrência internacional que as obrigasse a buscar maior eficiência e produtividade.

Quando essas barreiras começam a desaparecer, parte das empresas deixa de ser economicamente viável. Algumas se adaptam, outras encerram as atividades.

É uma consequência possível de qualquer processo de liberalização econômica. A proteção estatal preserva empresas e empregos por algum tempo, mas não elimina o custo de manter empresas não competitivas.

O efeito é apenas a transferência desse custo para consumidores e pagadores de impostos, que enfrentam preços mais elevados e sustentam estruturas produtivas menos eficientes.

Isso não significa que todas as empresas fechadas na Argentina fossem improdutivas ou sobrevivessem graças à proteção do Estado.

A contração da demanda, as dificuldades de financiamento e os custos do próprio ajuste também contribuíram para os fechamentos.

Entretanto, ignorar que uma economia submetida por décadas a controles e protecionismo precisa passar por uma reorganização produtiva é desconhecer como o mercado funciona.

Lembremos que a Argentina tinha fortes restrições ao comércio exterior. Em 2023, a soma de suas exportações e importações representava apenas 26,7% do Produto Interno Bruto (PIB).

Em 2025, esse percentual subiu para 30,4%, ainda abaixo dos 35,3% registrados pelo Brasil. Milei eliminou licenças de importação, reduziu tarifas, flexibilizou controles cambiais e diminuiu impostos.

O país começou a enfrentar uma concorrência externa de que boa parte de suas empresas esteve protegida por décadas.

Porém, se o fechamento de empresas é prova de fracasso econômico, convém examinar o que acontece no Brasil.

Segundo os dados da Receita Federal, compilados pelo CNPJ Aberto, entre 2023 e 2025, foram abertas aproximadamente 13,6 milhões de empresas e encerradas 7,8 milhões, resultando em um saldo positivo de cerca de 5,8 milhões de CNPJs, incluindo microempreendedores individuais.

Somente em 2025, foram registrados 5,06 milhões de novos CNPJs, contra 2,80 milhões de baixas, com saldo positivo de 2,26 milhões.

Os números mostram que a dinâmica empresarial brasileira não pode ser reduzida à contagem dos negócios encerrados.

Entretanto, o aumento do número de CNPJs não significa, necessariamente, que o ambiente econômico seja favorável à atividade empresarial.

Boa parte das novas inscrições corresponde a microempreendedores individuais, frequentemente sem empregados.

Além disso, a criação de novos registros não revela as dificuldades enfrentadas pelas empresas existentes, especialmente aquelas que precisam financiar capital de giro, investir, contratar empregados e enfrentar a concorrência.

Há outro indicador que merece atenção: a quantidade de empresas que recorrem à recuperação judicial.

Segundo a série histórica da Serasa Experian, os pedidos passaram de 833 em 2022, último ano do governo Bolsonaro, para 1.405 em 2023 e 2.273 em 2024, os dois primeiros anos do terceiro governo Lula — um crescimento de aproximadamente 173% em apenas dois anos.

Em 2025, já sob uma metodologia revisada, foram registrados 977 processos de recuperação judicial, envolvendo 2.466 CNPJs.

Os critérios de contagem foram alterados, de modo que não é correto comparar diretamente os 977 processos com os números anteriores.

Mas os dados mostram que o crescimento do estoque de CNPJs convive com dificuldades financeiras relevantes entre as empresas em atividade.

É justamente essa a questão. Uma economia pode registrar milhões de novas empresas e, simultaneamente, enfrentar problemas de endividamento empresarial, juros elevados, dificuldades de financiamento e aumento da tributação — assim como pode passar por uma redução do número de empregadores durante um processo de ajuste econômico e reorganização produtiva.

Nenhum desses indicadores, isoladamente, permite decretar o sucesso ou o fracasso de uma política econômica.

Se os números brasileiros precisam ser interpretados considerando a abertura de novos negócios, a transformação da economia e as dificuldades das empresas existentes, por que os argentinos são apresentados isoladamente como demonstração de fracasso?

A redução de 6,3% no estoque de empregadores argentinos é relevante e merece investigação sobre suas causas e consequências, mas, isoladamente, não demonstra que a liberalização econômica fracassou.

Para isso, seria necessário examinar também a evolução da produção, da produtividade, dos investimentos, dos salários reais e do emprego.

Empresas podem desaparecer enquanto outras surgem, atividades produtivas podem perder espaço para setores mais eficientes e empregos podem ser substituídos por outros de maior produtividade.

É assim que as economias se transformam. A questão é saber se o resultado desse processo aumenta ou diminui a riqueza produzida pela sociedade.

Em resumo

O que aconteceu?

Esse perfil é dedicado ao grupo de redatores da Revista Oeste. Eles são os responsáveis pela produção dos textos que vão ao ar.

Qual é o ponto principal?

• Fechamentos de empresas não definem sucesso ou fracasso econômico; • Autor distingue a redução de empregadores do total de negócios encerrados; e • Artigo defende critérios para comparar a dinâmica empresarial e as políticas econômicas.

Quais são os dados mais importantes?

A redução de 32 mil empresas empregadoras na Argentina desde a posse de Javier Milei, em dezembro de 2023, tem sido utilizada por eleitores de Lula como demonstração do fracasso da política econômica argentina. O passo seguinte foi transportar o argumento para a eleição presidencial brasileira: uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), acompanhada da

Qual é o contexto?

O número é real. Segundo os registros da Superintendência de Riscos do Trabalho da Argentina, o país tinha quase 520 mil empregadores registrados em novembro de 2023, antes da posse de Milei. Em julho de 2026, eram cerca de 480 mil, uma redução de 6,3%. O que não se esclarece é que esses 32 mil representam a redução líquida do estoque de empregadores e não o

Quais são os próximos desdobramentos?

Contudo, a questão principal é outra. O fechamento de empresas é necessariamente uma demonstração de fracasso econômico? E, se for, por que o mesmo critério não é aplicado ao Brasil?

Fontes