Fé e Sociedade · 2026-09-21 · Redação Notícia ES

Nordeste mantém 64% de católicos e vê evangélicos chegarem a 22%

Mudança religiosa em três décadas amplia diversidade e discursos conservadores, mas dados e relatos mostram que a fé não determina um voto único.

Nordeste mantém 64% de católicos e vê evangélicos chegarem a 22%
Fiéis participam de celebração católica em Juazeiro do Norte, no Ceará. Crédito: Lalo de Almeida/Folhapress.

O Nordeste continua sendo a região mais católica do Brasil, embora a participação de fiéis tenha caído de 89% em 1991 para 64% em 2022. No mesmo período, a proporção de evangélicos avançou de 5% para 22%, segundo dados do Censo reunidos em reportagem publicada nesta segunda-feira, 21 de setembro. A transformação amplia a diversidade religiosa e muda a linguagem política na campanha de 2026.

A expansão evangélica não apagou tradições católicas profundamente ligadas à cultura regional. Devoções a Padre Cícero, frei Damião e Irmã Dulce atravessam gerações, romarias e festas populares. No Crato, no Ceará, 81,5% dos moradores se declararam católicos, a maior proporção entre municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes.

Ao mesmo tempo, 24 cidades nordestinas já têm maioria evangélica. São Pedro dos Crentes, no Maranhão, Rio Formoso e Sirinhaém, em Pernambuco, estão entre os exemplos citados. Catu e Camaçari, na Bahia, exibem divisão mais equilibrada entre católicos e evangélicos, além de parcela superior a 20% de pessoas sem religião.

Conservadorismo atravessa denominações

Pesquisadores observam que pautas de família, segurança, moral e costumes aproximam setores católicos e evangélicos. O fenômeno não elimina diferenças teológicas nem transforma todas as igrejas em um bloco. Ele cria, porém, uma linguagem comum usada por lideranças religiosas, influenciadores e candidatos que buscam o eleitor cristão.

A projeção digital de frei Gilson, ligado à Renovação Carismática Católica, ilustra essa reorganização. Com milhões de seguidores, ele alcança público jovem por música, oração e redes sociais. Conteúdos religiosos circulam entre denominações, e uma canção evangélica sobre família pode alcançar católicos e até pessoas sem vínculo institucional.

Fé não produz voto automático

Relatos reunidos no Ceará mostram fiéis católicos que apoiam Lula, Flávio Bolsonaro ou permanecem indecisos. Há também crítica ao uso eleitoral da religião. Essa diversidade impede concluir que crescimento conservador representa transferência automática de votos para uma candidatura específica.

O comportamento eleitoral depende de renda, avaliação do governo, segurança, identidade regional, liderança local e história familiar, além da fé. Mesmo pessoas que compartilham doutrina podem escolher candidatos diferentes. Pesquisas sobre religião ajudam a mapear valores, mas não substituem intenção de voto medida com metodologia eleitoral.

Campanha precisa respeitar limites

A aproximação entre política e devoção exige atenção às regras. Templos são bens de uso comum para fins eleitorais, e propaganda nesses espaços sofre restrições. A reportagem registrou adesivos de candidatos em área de romaria, prática descrita como proibida. A proteção à liberdade religiosa não autoriza campanha fora dos limites legais.

Lideranças têm direito a opinião política, e fiéis mantêm autonomia para concordar ou discordar. O problema surge quando autoridade espiritual é usada para constranger, ameaçar ou comprar apoio, ou quando estruturas religiosas são convertidas irregularmente em comitês eleitorais. Denúncias precisam ser documentadas e encaminhadas à Justiça Eleitoral.

A fotografia de longo prazo é clara: o Nordeste permanece majoritariamente católico, tornou-se muito mais evangélico e abriga um eleitorado religioso menos homogêneo do que os rótulos sugerem. Nas próximas semanas, o desafio será distinguir expressão legítima de valores, exploração eleitoral da fé e escolhas individuais que não cabem em uma única bancada.

A legislação brasileira assegura liberdade de crença, protege locais de culto e mantém o Estado laico. Lideranças religiosas podem participar do debate público como qualquer cidadão, enquanto igrejas e campanhas devem observar regras eleitorais sobre propaganda, abuso de poder e uso de estruturas institucionais. Para interpretar pesquisas, também é necessário conferir amostra, margem de erro, período de campo e forma da pergunta: identidade declarada, frequência a cultos e posição política medem dimensões diferentes. Generalizações podem ocultar diferenças entre capitais e interior, faixas de renda, gerações e denominações. A cobertura responsável deve tratar fiéis como eleitores com múltiplas motivações, e não como votos automaticamente transferidos por uma liderança. O Censo descreve pertencimento religioso, não preferência partidária. Por isso, qualquer associação entre religião e candidatura precisa de pesquisa eleitoral específica, com metodologia registrada, e ainda assim expressa uma tendência estatística, jamais uma ordem coletiva ou um destino individual do voto.

Em resumo

Qual é a proporção de católicos no Nordeste?

Os dados citados apontam 64% em 2022, ante 89% em 1991.

Quanto os evangélicos representam?

A proporção regional chegou a 22% em 2022, ante 5% em 1991.

Qual cidade grande tem maior proporção católica?

Crato, no Ceará, aparece com 81,5%.

A religião determina o voto?

Não. Fiéis da mesma denominação podem apoiar candidatos diferentes ou permanecer indecisos.

Por que o conservadorismo cresceu?

Pautas de família, moral, segurança e costumes aproximam setores de diferentes igrejas.

Pode haver propaganda dentro de templos?

A legislação eleitoral restringe propaganda em bens de uso comum, categoria que inclui templos.

Fontes

  • Folha de S.Paulo — religião e voto no Nordeste
  • IBGE — Censo 2022: religiões
  • ISER — Instituto de Estudos da Religião
  • TSE — propaganda eleitoral em bens de uso comum