O calhorda tem nome
Documento registrado em cartório por Karina Gama e apreendido pela PF cita Breno Pires em relato sobre pressão por delação no caso Dark Horse.

O nome está no papel. Breno Pires, repórter da revista piauí, aparece numa declaração registrada em cartório por Karina Ferreira da Gama no dia 4 de setembro e encontrada nesta quinta-feira, 10 de setembro, pela Polícia Federal durante as buscas da Operação Make Up. No trecho intitulado “Do contato posterior do jornalista”, Karina afirma que Pires já havia perguntado se ela faria delação premiada, voltou ao assunto em 3 de setembro e disse que ela estaria “servindo de bucha de canhão para o candidato”. Segundo a declaração, ele também teria dado a entender que, sem colaboração, ela poderia se tornar alvo de medida judicial.
A acusação é explosiva porque Breno Pires não aparece como personagem periférico da história. Ele é o jornalista que, nos últimos dias, assinou uma sequência de reportagens sobre o financiamento e a produção de Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. A mesma série jornalística tratou de repasses de Daniel Vorcaro, Banco Master, emendas de Mario Frias, metadados ligados à produtora e conexões financeiras que passaram a ser examinadas pelas autoridades.
Karina liga a abordagem atribuída ao repórter exatamente a esse conjunto de reportagens. Na versão formalizada em cartório, ela sustenta que as irregularidades descritas nas matérias nunca existiram e que o jornalista que as publicava também passou a falar com ela sobre delação.
É aí que a história muda de natureza. Uma coisa é um repórter perguntar, confrontar documentos, insistir em respostas e publicar o que apurou. Outra coisa é o que Karina descreve: o autor da série entrando em contato com a mulher que estava no centro da cobertura para tocar no tema de uma colaboração premiada e dizer que ela estaria servindo de “bucha de canhão”.
A frase que acendeu o caso
O trecho mais grave da declaração é curto e devastador. Karina afirma que Breno já havia perguntado antes se ela faria delação, num contexto que ela interpretou como incentivo. Em 3 de setembro, segundo o documento, ele voltou ao tema e disse que ela estava “servindo de bucha de canhão para o candidato”.
Na sequência, ainda de acordo com a declaração, o jornalista teria deixado no ar que, se ela não fechasse uma colaboração premiada, poderia acabar atingida por medida judicial.
Coação, quando configurada, é crime. Jornalista não é investigador, procurador ou autoridade com poder de oferecer benefício processual. O que torna o relato de Karina tão sério é justamente a descrição de uma conversa que, na leitura dela, teria ultrapassado o campo da apuração jornalística e entrado no terreno da pressão.
A produtora registra que não tinha o que delatar. Afirma que produziu o filme, foi remunerada pelo serviço e não participou da captação do dinheiro de Daniel Vorcaro. Ainda assim, segundo ela, o tema da delação apareceu repetidamente em contatos feitos por pessoas diferentes.
O filme, o dinheiro e a guerra em torno de Dark Horse
Dark Horse é a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Karina Gama é dona da Go Up Entertainment. O deputado federal Mario Frias, do PL de São Paulo, é produtor-executivo da obra e aliado político do grupo.
Hoje existem duas frentes abertas em torno do filme. A primeira envolve dinheiro de Daniel Vorcaro, do Banco Master, enviado para a produção a pedido de Flávio Bolsonaro. Reportagens da piauí, assinadas por Breno Pires, divulgaram relatório do Coaf apontando uma parcela adicional de US$ 1,6 milhão em setembro de 2025, além do que Flávio havia admitido. Com isso, o total conhecido dos repasses chegou a US$ 12,3 milhões.
A segunda frente envolve emendas de Mario Frias destinadas ao Instituto Conhecer Brasil, ONG de Karina. A Polícia Federal falou nesta quinta-feira em um “circuito financeiro fechado” de aproximadamente R$ 19 milhões entre gabinete parlamentar, entidades beneficiadas, empresas contratadas e a produtora. O caso está sob relatoria do ministro Flávio Dino no Supremo Tribunal Federal.
É nesse cenário que o documento apreendido pela PF ganha peso político. A produtora que já estava no centro de duas investigações havia deixado registrado, seis dias antes da operação, que vinha sendo procurada por pessoas que falavam em delação.
Três contatos, o mesmo assunto
Breno Pires não é o único nome citado na declaração.
Karina relata que, em 22 de maio, Fernando Sarney teria entrado em contato oferecendo apoio jurídico e dizendo possuir “grande proximidade” com Flávio Dino. Sarney nega conhecer Karina e nega ter conversado com ela.
Mais tarde, em 27 de agosto, segundo a declaração, um pastor evangélico teria feito nova abordagem. Karina afirma que ele disse ter conversado com pessoas do governo e do Supremo e prometeu que, caso ela delatasse, “nada ocorreria” e não haveria operação policial.
Depois veio 3 de setembro. É nessa data que ela coloca o nome de Breno Pires no relato. Um dia depois, 4 de setembro, registra a declaração em cartório.
Se lida em sequência, a narrativa desenhada por Karina é clara: três abordagens em momentos diferentes, feitas por pessoas diferentes, sempre orbitando a possibilidade de uma delação contra Flávio Bolsonaro. Um empresário, um pastor e um jornalista. Três portas. O mesmo assunto.
Quem é Breno Pires nessa engrenagem
Breno Pires é jornalista recifense. Passou pelo Estadão, onde foi um dos nomes da cobertura que revelou o orçamento secreto, e está na revista piauí desde 2022. Também integra a direção da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Abraji.
Nos últimos dias, foi um dos autores que mais impulsionaram o caso Dark Horse. Publicou sobre o pagamento adicional de Vorcaro, sobre metadados relacionados à produtora, sobre emendas de Frias e sobre o personagem chamado Thiago citado por Leo Dias como elo entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro.
Nesta quinta-feira, o próprio Breno também noticiou a operação da PF e o circuito financeiro de cerca de R$ 19 milhões apontado na investigação.
É justamente essa sobreposição de papéis que faz o documento apreendido chamar atenção. A acusação de Karina não é que Breno publicou reportagens duras. A acusação é outra: que o mesmo jornalista responsável pela série teria ligado para a produtora, falado em delação, usado a expressão “bucha de canhão” e associado a ausência de colaboração à possibilidade de medida judicial.
Isso exige uma resposta direta.
O documento que a PF encontrou
O papel apreendido pela Polícia Federal não surgiu depois da operação. Ele foi registrado em cartório no dia 4 de setembro, antes das buscas desta quinta-feira. Esse detalhe temporal é central porque mostra que Karina deixou formalizada sua versão antes de saber que a PF entraria em ação naquele endereço.
O documento não contém gravação da conversa atribuída a Breno, print de mensagem ou outra prova independente do diálogo. Folha e Estadão registraram essa limitação, e investigadores trataram o relato com cautela. O que existe, objetivamente, é uma declaração formalizada em cartório e apreendida pela Polícia Federal.
Isso não encerra a história. Abre uma nova.
Se Breno Pires entende que o relato é falso, a resposta pode ser simples e pública: negar, explicar o contexto da conversa e, se houver registro, apresentá-lo. O peso do episódio vem justamente do fato de o nome do jornalista estar num documento anterior à operação e de o conteúdo tocar no mesmo tema que domina as investigações: delação, pressão e responsabilidade criminal.
A pergunta que saiu das redes
Pâm Costa colocou o nome na mesa, e a reação da direita no X foi imediata. Uma pergunta passou a circular: “Você coagiu a Karina Gama, Breno Pires? A mando de quem?”
A formulação é dura, mas nasce do trecho que agora está sob os olhos da Polícia Federal. E, neste ponto, a questão deixa de ser apenas política. Trata-se de saber o que foi dito, em qual contexto e com qual intenção.
Jornalismo investigativo vive de pressão, mas a pressão é sobre o poder por meio de documentos, perguntas, exposição pública e cobrança de respostas. Quando uma fonte ou personagem de investigação registra que um repórter falou em delação e em consequência judicial, a própria imprensa passa a ter o dever de explicar onde terminou a apuração e onde começaria outra coisa.
O ponto que precisa ser respondido
Karina afirma que não tem nada a delatar, que não captou dinheiro de Vorcaro e que apenas produziu o filme mediante remuneração. A PF, por outro lado, executou nesta quinta-feira uma operação que investiga movimentações financeiras relacionadas a emendas, entidades e à produtora. São frentes distintas que se cruzam na mesma pessoa.
O documento apreendido não absolve Karina das suspeitas investigadas. Também não condena Breno Pires. Mas coloca no centro do caso uma pergunta nova e incômoda: por que um jornalista que vinha publicando a principal série de reportagens sobre Dark Horse aparece numa declaração registrada em cartório como alguém que teria estimulado uma colaboração premiada?
Essa pergunta não desaparece com silêncio.
O papel tem data, cartório e nome. Foi encontrado pela PF no dia em que a operação explodiu. Nele, Karina Ferreira da Gama descreve uma abordagem que, se ocorreu nos termos registrados, ultrapassa a fronteira comum entre fonte e repórter.
O caso Dark Horse já tinha dinheiro, política, polícia, Supremo e eleição. Agora tem também uma acusação contra quem vinha contando a história. E o nome está escrito no documento: Breno Pires.
Em resumo
Karina registrou em cartório que Breno Pires teria voltado ao tema de uma delação, dito que ela estava servindo de 'bucha de canhão para o candidato' e sugerido possível medida judicial caso não houvesse colaboração.
A declaração foi registrada em cartório em 4 de setembro de 2026 e encontrada pela Polícia Federal durante as buscas de 10 de setembro.
Breno Pires é repórter da revista piauí, ex-Estadão e diretor da Abraji, com atuação recente na cobertura do caso Dark Horse.
Não. O documento registra a versão formalizada por Karina, mas não contém gravação, print da conversa ou prova independente do diálogo.