Opinião · 2026-08-27 · Opinião | Notícia ES

Onde estava Augusto Cury

Augusto Cury entrou na disputa com um discurso de pacificação, mas seu posicionamento sobre o 8 de janeiro, anistia e o campo conservador merece escrutínio.

Onde estava Augusto Cury
Onde estava Augusto Cury

Augusto Cury não surgiu agora porque o Brasil descobriu inteligência emocional. Ele surgiu agora porque o placar apertou.

Quando a disputa ficou entre Lula e Flávio Bolsonaro, apareceu o homem do divã, do “Brasil que soma”, do “zero ataque pessoal”. O discurso é doce. A função é outra: fatiar o voto de quem já está cansado, ferido e com o pai da família política na mira do STF.

Antes de comprar o pacote, vale a pergunta que o marketing dele não responde.

Onde ele estava no 8 de janeiro?

No X oficial dele, a conta @augustocury, não há post chamando os presos de vítimas, nem denunciando o que o governo chama de “terroristas”, nem gritando anistia no dia em que o país partiu ao meio. Em janeiro de 2023 o perfil seguia o roteiro de sempre: frase pronta, mente, ansiedade, relacionamento. O país em chamas. O psiquiatra no piloto automático.

Quem viveu a perseguição sabe o calendário. Teve gente algemada de madrugada na frente de filho. Teve tornozeleira, salário retido, multa, silêncio forçado. Teve mãe separada de criança por pichar uma estátua. Débora Rodrigues levou 14 anos no papel. Cury descobriu a Débora do Batom quando o tema já era ativo eleitoral, não quando a porta da casa dela foi arrombada pela narrativa.

Em 2025 ele gravou o apelo emocional pelos filhos dela. Em 2026, já pré-candidato, foi à CNN e ao Correio Braziliense vender anistia “para quase todos”. Quase. Os “cabeças”, não. O Bolsonaro, “preciso conhecer o processo com profundidade”. “Segurança jurídica.” Tradução: abraça a base com a mão direita e deixa o STF com a esquerda.

Flávio não precisa “conhecer o processo”. Flávio vive o processo. Caiado e Zema, goste-se ou não, botaram anistia na mesa sem asterisco de consultório. Cury botou um “quase” e um “depois eu vejo”. Isso não é coragem. É cláusula de escape.

Quem o colocou no jogo

Ele não nasceu no Avante por acidente. Conversou “longamente” com Temer. Conversou “longamente” com Kassab. Conversou com Aécio. Kassab chegou a dizer que, se Cury tivesse aparecido três ou quatro meses antes, poderia ter sido candidato do PSD. Não deu. O partido já tinha Caiado, Leite, Ratinho. Sobrou o Avante.

Lembra o Avante de 2022? Lançou Janones e depois foi para o colo de Lula. Agora o mesmo selo apresenta o “vendedor de sonhos” como terceira via. Terceira via no Brasil quase nunca é via. É desvio. Tira voto de um lado, preserva o outro.

Ele se descreve como “mente de direita e coração social”. Frase de vitrine. Na prática defende semipresidencialismo, reforma no STF com linguagem de equilíbrio e, no debate da Band, relação “sem subserviência” com os Estados Unidos e “ótimas relações” com a China. Pacificação para fora. Ambiguidade para dentro.

Patrimônio declarado: R$ 242 milhões. Metade disso em crédito de empréstimo a empresa. O homem que pede para o povo “focar no que importa” chegou atrasado na briga de quem está com a vida na justiça e com a família partida. Chegou rico, literário e disponível para o horário eleitoral.

O truque da saltura do campeonato

Toda eleição brasileira tem um personagem de última hora. O papel é conhecido.

  1. Falar a língua do conservador sem assumir o custo do conservador.
  2. Prometer paz para quem está em guerra.
  3. Chamar polarização de doença, como se a polarização tivesse nascido do nada e não de um lado que prendeu, censurou e batizou de terrorista quem protestou.
  4. Oferecer anistia pela metade, o suficiente para fisgar o evangélico e o pai de família, insuficiente para soltar o alvo principal.
  5. Aparecer nos debates, crescer um ou dois pontos, e no segundo turno “avaliar teses”. Ele já disse que pode apoiar qualquer um dos dois se aderir às teses dele. Qualquer um. Inclusive o que o seu eleitor quer tirar do Planalto.

Pesquisa o colocou na casa dos 2%. Ele culpa o algoritmo. Pode até ter razão sobre alcance. Não tem razão sobre origem. Candidato que precisa explicar por que 15 milhões de seguidores “não sabem que ele é candidato” está confessando o óbvio: a fama é de livro, não de trincheira.

No domingo 23 de agosto ele fez teatro na porta da Band. Iria embora porque Lula e Flávio faltaram. “Adoeceram a nação.” Depois conversou com o jornalista, entrou e ficou. Protesto de cinco minutos. Permanência de uma hora. Quem quer confronto entra e enfrenta. Quem quer palco ameaça sair e volta.

O que a “pacificação” esconde

Cury acerta numa coisa: pena desproporcional existe. Comparar o crime de quem quebrou vidro com o rombo de banco é argumento que dói no sistema. Usar isso para se eleger, sem dizer com todas as letras que Bolsonaro não é o monstro que o STF pintou, é outra operação.

Pacificar, no dicionário dele, é pedir que a vítima abaixe a voz para o algoz não se irritar. O Brasil não está doente porque o povo gritou. Está doente porque um grupo decidiu que grito de um lado é democracia e grito do outro é terrorismo.

Onde estava Augusto Cury quando o grito do outro lado virou inquérito eterno? Vendendo livro. Palestrando. Fraseando. O silêncio daquele período vale mais do que o carrossel de agora.

Fecha o raciocínio

Ningém precisa odiar o homem. Precisa ler a função.

Se o voto em Cury cresce na direita, o voto em Flávio encolhe. Se Flávio encolhe no primeiro turno, o segundo turno fica mais fácil para quem já controla máquina, orçamento e narrativa. O “centrado no que importa” importa, sim: importa para diluir o campo que o sistema quer ver dividido.

Quem sofreu o 8 de janeiro na pele não deve o voto a quem descobriu o 8 de janeiro no estúdio.

Pergunta final, sem firula: se Cury é o médico da nação, por que a consulta só foi marcada quando a urna já estava na mesa?