Política Nacional · 2026-11-07 · Redação Notícia ES

Opinião - Lara Mesquita e Bruno Bolognesi: Debate sobre sistema eleitoral misto ignora experiência de quem já tentou

Propostas em discussão na Câmara prometem o melhor de dois mundos, mas não consideram casos anteriores

Opinião - Lara Mesquita e Bruno Bolognesi: Debate sobre sistema eleitoral misto ignora experiência de quem já tentou
Opinião - Lara Mesquita e Bruno Bolognesi: Debate sobre sistema eleitoral misto ignora experiência de quem já tentou

Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

Os números do levantamento

É professora na Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP) e pesquisadora do Cepesp. Doutora em ciência política pelo IESP-UERJ.

Cientista político, é professor na UFPR e coordenador do Laboratório de Partidos e Sistemas Partidários (LAPeS)

A reforma eleitoral é visita frequente no Congresso. Em 2015 e 2017, a Câmara dos Deputados votou projeto do chamado distritão, que elege os mais votados e ignora os partidos. A proposta foi derrotada nas duas ocasiões. Em 2021, voltou a circular e foi descartada.

Informações e repercussões do episódio

Desde que assumiu a presidência da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) defendeu três vezes a adoção de um sistema misto .

Em abril de 2025, o modelo apareceu sem um diagnóstico claro; em novembro, virou blindagem contra o crime organizado; agora, é apresentado como resposta aos puxadores de votos ideológicos, como esta Folha escreveu em matéria de 28 de outubro .

Gilberto Kassab , presidente do PSD, já defendia a mudança antes de 2026. Portanto, a preferência dos dois antecede o resultado das últimas eleições , embora os resultados deste ano possam ter engrossado o coro de apoio.

Muitos deputados ficaram insatisfeitos com a distribuição das cadeiras, que teria sido distorcida pelos puxadores de voto —que qualificamos como candidatos com votação correspondente a mais de duas vezes o quociente eleitoral — concentrados sobretudo no PL .

Foram apenas sete no pleito de 2026; nas três eleições anteriores, não passaram de cinco.

Quase todos falam em adotar um sistema misto: uma combinação de disputa majoritária e proporcional. A promessa é obter o melhor de dois mundos: a proporcionalidade das listas e o vínculo local dos distritos.

Não por acaso, a obra de referência de Matthew Shugart e Martin Wattenberg sobre o tema traz essa expressão no subtítulo, com um ponto de interrogação.

A combinação pode entregar o melhor dos dois, mas também o pior dos dois, ou um monstro que nenhum deles produziria sozinho.

O quadro que acompanha este artigo apresenta os principais modelos e experiências internacionais.

Quem acreditou na combinação virtuosa raramente ficou satisfeito. A Itália adotou um sistema misto em 1993, trocou-o em 2005, aprovou em 2015 outro que nunca chegou a ser usado e voltou a um misto em 2017, reformado novamente em 2026.

Na Alemanha , modelo dos reformistas, as cadeiras excedentes levaram o Tribunal Constitucional a derrubar a lei eleitoral em 2008 e em 2012, e o Bundestag chegou a 736 deputados antes de nova reforma, em 2023.

No Lesoto e na Coreia do Sul, os partidos criaram legendas-satélite para driblar a compensação. São sistemas em reforma permanente, puxadinhos que pedem novos puxadinhos.

Há duas famílias principais dos sistemas eleitorais mistos . No modelo paralelo, usado no Japão e no México, distritos e listas são apurados separadamente e as cadeiras se somam, o que favorece o maior partido.

No compensatório, da Alemanha, da Nova Zelândia e da Escócia, a votação partidária define o tamanho de cada bancada, e a lista completa o que os distritos não deram.

Outra escolha decisiva nos sistemas mistos é o número de votos. Com dois, o eleitor escolhe um candidato no distrito e, em separado, um partido para a lista, que pode ser outro, e os partidos precisam pedir voto para si.

Com um só, o eleitor precisa da pessoa para chegar ao partido, e o partido fica refém do candidato.

Uma proposta atribuída ao deputado Glaustin da Fokus (Podemos-GO) propõe o chamado sistema federativo misto.

Metade das cadeiras de cada estado iria aos candidatos mais votados no estado, sem distritos: é o "distritão", nome brasileiro dado ao voto único não transferível (SNTV, na sigla em inglês).

A outra metade seria preenchida por listas fechadas, também conhecidas como pré-ordenadas.

As cadeiras de lista seriam divididas pela votação de cada partido, descontados os votos de seus candidatos já eleitos, mecanismo conhecido como desconto.

Nenhuma democracia usa algo parecido, e a proposta ignora a experiência de quem chegou perto.

Japão e Taiwan abandonaram o voto único não transferível depois de décadas de disputa entre candidatos do mesmo partido, campanhas caras e escândalos de corrupção .

Na proposta, ainda informal, do Podemos, a campanha continuaria estadual, sem aproximação entre representantes e representado e sem redução de custos de campanhas.

Qual seria o benefício para a democracia brasileira com esta reforma?

O desconto ainda pune o partido que concentra votos em quem se elege, e a experiência italiana mostra que os partidos aprendem rápido a driblá-lo.

A proposta também parte de uma crítica discutível à lista aberta. No sistema atual, embora o eleitor escolha um nome, seu voto é um voto na lista do partido e a escolha do nome tem a função de ordenar a lista.

O candidato muito votado que ajuda a eleger colegas é uma consequência prevista da regra proporcional.

Em 2026, 63 deputados foram eleitos com menos votos individuais do que candidatos que ficaram sem cadeira no mesmo estado.

Isso resulta do desempenho global dos partidos e da distribuição proporcional das vagas, e não necessariamente da atuação dos puxadores de voto.

Uma reforma calibrada para os resultados circunstanciais de uma eleição pode subestimar a capacidade dos partidos de se adaptar a regras novas.

Em resumo

O que aconteceu?

Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

Qual é o ponto principal?

É professora na Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP) e pesquisadora do Cepesp. Doutora em ciência política pelo IESP-UERJ.

Quais são os dados mais importantes?

Cientista político, é professor na UFPR e coordenador do Laboratório de Partidos e Sistemas Partidários (LAPeS)

Qual é o contexto?

A reforma eleitoral é visita frequente no Congresso. Em 2015 e 2017, a Câmara dos Deputados votou projeto do chamado distritão, que elege os mais votados e ignora os partidos. A proposta foi derrotada nas duas ocasiões. Em 2021, voltou a circular e foi descartada.

Quais são os próximos desdobramentos?

Desde que assumiu a presidência da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) defendeu três vezes a adoção de um sistema misto .

Fontes