Os negócios 'petistas' alvo de boicote após vitória de Lula: 'Virei o pior cabeleireiro do mundo por ser de esquerda' - BBC News Brasil
Advogados esclarecem se listas com nomes de empresas e profissionais que circulam nas redes sociais são liberdade de expressão ou podem ser enquadrados como crime.

Mal terminou a eleição , e o cabeleireiro Alex Santos, que declarou voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ) por uma rede social, viu sua agenda de trabalho ser impactada por cancelamentos de clientes que disseram a ele não contratar serviços de profissionais que se identificam com o governo reeleito.
"A partir do momento em que decidi falar
"A partir do momento em que decidi falar que eu sou de esquerda, virei o pior cabeleireiro do mundo", afirma Santos, que diz ter comemorado a vitória de Lula em seu perfil pessoal no Instagram, sem fazer publicações na conta profissional.
"Na segunda, uma cliente que me seguia tanto no pessoal quanto profissional viu e mandou mensagem para a dona do salão, dizendo que era absurdo eu ser esquerdista e que eu jamais tocaria no cabelo dela novamente.
Minha chefe disse que tinha outros cabeleireiros, e que ela poderia escolher o que ela quisesse. Na terça, outra cliente ligou perguntando se o salão era de esquerda ou direita."
Santos, que vive e trabalha em Joinville (SC), é
Santos, que vive e trabalha em Joinville (SC), é um dos profissionais autônomos e donos de pequenos negócios que teriam declarado voto em Lula e virado alvo de retaliações por parte de clientes que apoiam o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Cidade catarinense a cerca de 180 quilômetros da capital Florianópolis, Joinville registrou 73,82% dos votos válidos — que excluem brancos e nulos —, para Flávio, enquanto Lula ficou com apenas 26,18%, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) compilados pela BBC News Brasil em um mapa interativo .
O movimento surgiu na última segunda-feira (26/10), principalmente em cidades onde Lula não obteve a maioria dos votos, mas também atingiu metrópoles como São Paulo, onde circulam, via redes sociais e grupos de WhatsApp , listas que incentivam boicotes a bares, restaurantes, manicures, personal trainers e outros profissionais e estabelecimentos.
"Meus chefes não tomaram partido, ofereceram outros profissionais para atender a essas clientes e não agiram diferente comigo", diz Santos, ponderando, no entanto, que a situação pode se agravar.
"Joinville é bolsonarista. Essas duas clientes sozinhas não, mas, se elas quiserem fazer da minha vida um inferno, pode acontecer, porque cerca de 90% das minhas clientes são bolsonaristas, são de direita", diz o cabeleireiro.
A BBC News Brasil teve acesso a listas de boicote, que não são reproduzidas nesta reportagem para evitar que os comércios e profissionais sejam expostos sem autorização.
Esses profissionais agora se perguntam se promover uma lista de boicote pode ser considerado liberdade de expressão ou configura algum tipo de crime. A reportagem ouviu advogados para esclarecer essas dúvidas.
Eles afirmam que autônomos ou empresários que se sentirem prejudicados podem recorrer à Justiça, mas cada caso precisa ser analisado individualmente, e um possível processo depende de evidências sólidas.
Professor de direito do trabalho na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) , Guilherme Guimarães Feliciano explica que não há problema nem em rejeitar mercadorias ou serviços de algum estabelecimento nem em sugerir que outras pessoas façam o mesmo.
"É liberdade de expressão e consumo", resume.
Sua visão é compartilhada pelo advogado Gustavo Ramos, mestre em Direito das Relações Sociais e Trabalhistas. Ele compara este cenário com boicotes a empresas por suas posições públicas — por qualquer motivo, como o apoio ou não à escala seis por um.
"A diferença está no critério: conduta da empresa versus opinião política de quem está por trás dela", ele diz, lançando mão de outra comparação, com a chamada Lista Suja do Trabalho Escravo.
"Ela é lícita porque se baseia em fatos apurados com direito de defesa, refere-se a condutas da própria empresa e serve a um interesse público previsto em lei. A lista por voto não tem nenhum desses atributos."
Outra diferença, frisa Ramos, é que o voto não é público. "A opinião política é dado pessoal sensível à luz da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) , de modo que compilar e divulgar esse tipo de informação sem autorização é ilícito por si só, antes mesmo de qualquer prejuízo."
Feliciano, da USP, acrescenta que, além de contrariar o direito ao sigilo do voto, uma lista como essas quebra "a garantia constitucional de que ninguém será privado de direitos por convicção política".
Em resumo
Mal terminou a eleição , e o cabeleireiro Alex Santos, que declarou voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ) por uma rede social, viu sua agenda de trabalho ser impactada por cancelamentos de clientes que disseram a ele não contratar serviços de profissionais que se identificam com o governo reeleito.
"A partir do momento em que decidi falar que eu sou de esquerda, virei o pior cabeleireiro do mundo", afirma Santos, que diz ter comemorado a vitória de Lula em seu perfil pessoal no Instagram, sem fazer publicações na conta profissional.
"Na segunda, uma cliente que me seguia tanto no pessoal quanto profissional viu e mandou mensagem para a dona do salão, dizendo que era absurdo eu ser esquerdista e que eu jamais tocaria no cabelo dela novamente. Minha chefe disse que tinha outros cabeleireiros, e que ela poderia escolher o que ela quisesse. Na terça, outra cliente ligou perguntando se
Santos, que vive e trabalha em Joinville (SC), é um dos profissionais autônomos e donos de pequenos negócios que teriam declarado voto em Lula e virado alvo de retaliações por parte de clientes que apoiam o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Cidade catarinense a cerca de 180 quilômetros da capital Florianópolis, Joinville registrou 73,82% dos votos válidos — que excluem brancos e nulos —, para Flávio, enquanto Lula ficou com apenas 26,18%, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) compilados pela BBC News Brasil em um mapa interativo .