Segurança Pública · 2026-10-29 · Redação Notícia ES

Os negócios 'petistas' alvo de boicote após vitória de Lula: 'Virei o pior cabeleireiro do mundo por ser de esquerda' - BBC News Brasil

Advogados esclarecem se listas com nomes de empresas e profissionais que circulam nas redes sociais são liberdade de expressão ou podem ser enquadrados como crime.

Os negócios 'petistas' alvo de boicote após vitória de Lula: 'Virei o pior cabeleireiro do mundo por ser de esquerda' - BBC News Brasil
Os negócios 'petistas' alvo de boicote após vitória de Lula: 'Virei o pior cabeleireiro do mundo por ser de esquerda' - BBC News Brasil

Mal terminou a eleição , e o cabeleireiro Alex Santos, que declarou voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ) por uma rede social, viu sua agenda de trabalho ser impactada por cancelamentos de clientes que disseram a ele não contratar serviços de profissionais que se identificam com o governo reeleito.

"A partir do momento em que decidi falar

"A partir do momento em que decidi falar que eu sou de esquerda, virei o pior cabeleireiro do mundo", afirma Santos, que diz ter comemorado a vitória de Lula em seu perfil pessoal no Instagram, sem fazer publicações na conta profissional.

"Na segunda, uma cliente que me seguia tanto no pessoal quanto profissional viu e mandou mensagem para a dona do salão, dizendo que era absurdo eu ser esquerdista e que eu jamais tocaria no cabelo dela novamente.

Minha chefe disse que tinha outros cabeleireiros, e que ela poderia escolher o que ela quisesse. Na terça, outra cliente ligou perguntando se o salão era de esquerda ou direita."

Santos, que vive e trabalha em Joinville (SC), é

Santos, que vive e trabalha em Joinville (SC), é um dos profissionais autônomos e donos de pequenos negócios que teriam declarado voto em Lula e virado alvo de retaliações por parte de clientes que apoiam o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Cidade catarinense a cerca de 180 quilômetros da capital Florianópolis, Joinville registrou 73,82% dos votos válidos — que excluem brancos e nulos —, para Flávio, enquanto Lula ficou com apenas 26,18%, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) compilados pela BBC News Brasil em um mapa interativo .

O movimento surgiu na última segunda-feira (26/10), principalmente em cidades onde Lula não obteve a maioria dos votos, mas também atingiu metrópoles como São Paulo, onde circulam, via redes sociais e grupos de WhatsApp , listas que incentivam boicotes a bares, restaurantes, manicures, personal trainers e outros profissionais e estabelecimentos.

"Meus chefes não tomaram partido, ofereceram outros profissionais para atender a essas clientes e não agiram diferente comigo", diz Santos, ponderando, no entanto, que a situação pode se agravar.

"Joinville é bolsonarista. Essas duas clientes sozinhas não, mas, se elas quiserem fazer da minha vida um inferno, pode acontecer, porque cerca de 90% das minhas clientes são bolsonaristas, são de direita", diz o cabeleireiro.

A BBC News Brasil teve acesso a listas de boicote, que não são reproduzidas nesta reportagem para evitar que os comércios e profissionais sejam expostos sem autorização.

Esses profissionais agora se perguntam se promover uma lista de boicote pode ser considerado liberdade de expressão ou configura algum tipo de crime. A reportagem ouviu advogados para esclarecer essas dúvidas.

Eles afirmam que autônomos ou empresários que se sentirem prejudicados podem recorrer à Justiça, mas cada caso precisa ser analisado individualmente, e um possível processo depende de evidências sólidas.

Professor de direito do trabalho na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) , Guilherme Guimarães Feliciano explica que não há problema nem em rejeitar mercadorias ou serviços de algum estabelecimento nem em sugerir que outras pessoas façam o mesmo.

"É liberdade de expressão e consumo", resume.

Sua visão é compartilhada pelo advogado Gustavo Ramos, mestre em Direito das Relações Sociais e Trabalhistas. Ele compara este cenário com boicotes a empresas por suas posições públicas — por qualquer motivo, como o apoio ou não à escala seis por um.

"A diferença está no critério: conduta da empresa versus opinião política de quem está por trás dela", ele diz, lançando mão de outra comparação, com a chamada Lista Suja do Trabalho Escravo.

"Ela é lícita porque se baseia em fatos apurados com direito de defesa, refere-se a condutas da própria empresa e serve a um interesse público previsto em lei. A lista por voto não tem nenhum desses atributos."

Outra diferença, frisa Ramos, é que o voto não é público. "A opinião política é dado pessoal sensível à luz da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) , de modo que compilar e divulgar esse tipo de informação sem autorização é ilícito por si só, antes mesmo de qualquer prejuízo."

Feliciano, da USP, acrescenta que, além de contrariar o direito ao sigilo do voto, uma lista como essas quebra "a garantia constitucional de que ninguém será privado de direitos por convicção política".

Em resumo

O que aconteceu?

Mal terminou a eleição , e o cabeleireiro Alex Santos, que declarou voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ) por uma rede social, viu sua agenda de trabalho ser impactada por cancelamentos de clientes que disseram a ele não contratar serviços de profissionais que se identificam com o governo reeleito.

Qual é o ponto principal?

"A partir do momento em que decidi falar que eu sou de esquerda, virei o pior cabeleireiro do mundo", afirma Santos, que diz ter comemorado a vitória de Lula em seu perfil pessoal no Instagram, sem fazer publicações na conta profissional.

Quais são os dados mais importantes?

"Na segunda, uma cliente que me seguia tanto no pessoal quanto profissional viu e mandou mensagem para a dona do salão, dizendo que era absurdo eu ser esquerdista e que eu jamais tocaria no cabelo dela novamente. Minha chefe disse que tinha outros cabeleireiros, e que ela poderia escolher o que ela quisesse. Na terça, outra cliente ligou perguntando se

Qual é o contexto?

Santos, que vive e trabalha em Joinville (SC), é um dos profissionais autônomos e donos de pequenos negócios que teriam declarado voto em Lula e virado alvo de retaliações por parte de clientes que apoiam o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Quais são os próximos desdobramentos?

Cidade catarinense a cerca de 180 quilômetros da capital Florianópolis, Joinville registrou 73,82% dos votos válidos — que excluem brancos e nulos —, para Flávio, enquanto Lula ficou com apenas 26,18%, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) compilados pela BBC News Brasil em um mapa interativo .

Fontes