Fé e Sociedade · 2026-10-02 · Redação Notícia ES

Paul Freston analisa fake news religiosa contra direita

Sociólogo avalia que boato sobre Nossa Senhora Aparecida expõe a direita ao tipo de desinformação religiosa antes dirigido à esquerda.

Paul Freston analisa fake news religiosa contra direita
Paul Freston analisa fake news religiosa contra direita

O sociólogo da religião Paul Freston afirmou nesta sexta-feira (2) que a direita passou a enfrentar, na reta final da eleição, um tipo de desinformação religiosa que durante anos atingiu adversários de esquerda. A análise surgiu após o boato que ligou Flávio Bolsonaro a uma suposta tentativa de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.

A avaliação foi publicada pela Folha de S.Paulo em entrevista com Freston. A falsidade central do rumor é confirmada por checagem do Projeto Comprova, reproduzida pelo UOL: o projeto citado nas redes foi apresentado por outro parlamentar em 2007, rejeitado e arquivado em 2008, sem participação de Flávio.

Freston resumiu a inversão ao dizer que a direita estaria experimentando o próprio método de ataque. Para ele, o episódio é irônico porque boatos com linguagem religiosa já foram usados contra candidaturas petistas, entre eles a alegação recorrente e falsa de que Lula fecharia igrejas.

O caso mais recente ganhou força depois que publicações associaram uma fala de Flávio sobre dedicar o Brasil a Jesus a um projeto antigo sobre a padroeira. O candidato negou qualquer plano nesse sentido. A CNBB também declarou que não produziu nem participou da divulgação de informação falsa no processo eleitoral.

Boato reacende disputa religiosa

A checagem do Comprova mostrou que o Projeto de Lei 2.623/2007 buscava alterar a forma como o título de Nossa Senhora Aparecida aparecia na legislação. A proposta era de Victório Galli, então deputado federal, e foi arquivada no ano seguinte. Não há evidência de que Flávio tenha retomado ou defendido aquele texto.

A discussão extrapolou a verificação factual porque Nossa Senhora Aparecida ocupa lugar central na identidade católica brasileira. O tema ativou desconfianças entre setores católicos e evangélicos e transformou uma informação falsa em instrumento de disputa eleitoral. Para Freston, essa concorrência por presença religiosa no espaço público não começou agora, mas ganhou nova intensidade.

O pesquisador recordou a mudança de postura de igrejas pentecostais a partir dos anos 1980, quando parte dessas denominações abandonou uma posição mais distante da política institucional. Com o crescimento da representação evangélica, símbolos, discursos e alianças religiosas passaram a ocupar papel mais visível nas campanhas.

Freston aponta riscos políticos

Na avaliação de Freston, o campo progressista ainda encontra dificuldade para dialogar com o eleitorado evangélico e muitas vezes escolhe interlocutores pouco eficazes. Ele também considera que a linguagem religiosa usada por candidatos pode servir como mobilização eleitoral sem necessariamente se converter em um programa de governo.

O sociólogo distingue a retórica de campanha de uma proposta concreta de teocracia. Ainda assim, alerta que frases que reivindicam o país para uma tradição religiosa podem provocar temor entre cidadãos de outras crenças. A reação política, portanto, não depende apenas do conteúdo literal da fala, mas também de como ela é recebida por comunidades que disputam reconhecimento.

O episódio ainda gerou decisões judiciais sobre remoção de postagens. O TSE delimitou que conteúdos que apresentem como fato a ligação de Flávio com a retirada do título podem ser retirados, enquanto críticas, manifestações religiosas e opiniões permanecem protegidas. A distinção procura atingir a afirmação comprovadamente falsa sem eliminar o debate político.

Para o eleitor, a informação verificável é direta: não existe proposta de Flávio Bolsonaro para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida, e o projeto antigo usado no boato está arquivado desde 2008. A entrevista de Freston trata do efeito político dessa desinformação e de como a religião se tornou uma frente decisiva da campanha.

Em resumo

Qual foi a avaliação de Paul Freston?

Ele disse que a direita passou a sofrer o tipo de desinformação religiosa que por anos foi dirigido a adversários de esquerda.

Flávio Bolsonaro quer retirar o título da padroeira?

Não há evidência disso; a afirmação foi classificada como falsa pelo Projeto Comprova.

De onde veio o projeto citado no boato?

O texto foi apresentado por Victório Galli em 2007 e arquivado em 2008, sem participação de Flávio.

Por que o caso ganhou força?

Nossa Senhora Aparecida é um símbolo central do catolicismo, e o rumor ativou tensões religiosas na reta final da eleição.

O que o TSE determinou?

A corte delimitou a remoção de conteúdos que apresentem a informação falsa como fato, preservando críticas e opiniões.

Fontes

  • Folha de S.Paulo
  • Projeto Comprova — desinformação sobre Nossa Senhora Aparecida
  • UOL — regras do TSE para postagens sobre a padroeira