PF aponta divergência entre remessas e contas de filme
Documentos analisados indicam US$ 12,33 milhões enviados ao fundo Havengate e US$ 2,8 milhões registrados como entrada pela produtora de Dark Horse.

A Polícia Federal apontou uma divergência entre os valores enviados aos Estados Unidos por meio do fundo Havengate e os recursos que aparecem na documentação apresentada pela produtora do filme Dark Horse. A diferença foi descrita pela corporação como contábil e relevante para o inquérito.
O dado foi divulgado pelo g1 e confirmado em reportagem da Veja, que consultou o documento encaminhado ao Supremo Tribunal Federal. Uma representação da PF já tornada pública registra remessas de US$ 12.333.335 feitas pela Entre Investimentos ao fundo americano durante 2025.
Segundo a análise mais recente, os papéis da produtora Go Up registram a entrada de cerca de US$ 2,8 milhões no Brasil. A comparação deixa aproximadamente US$ 9,5 milhões sem correspondência direta nos documentos examinados até agora, o que não equivale, por si só, à conclusão de desvio ou crime.
As remessas foram distribuídas entre fevereiro, março, abril, maio e setembro de 2025. A PF relacionou os pagamentos a um acordo de financiamento que previa aporte total de US$ 24 milhões para a produção, inicialmente denominada Capitão do Povo e depois divulgada como Dark Horse.
Documentos exigem perícia financeira
Os investigadores afirmam que será necessário confrontar contratos, extratos bancários, operações de câmbio e registros contábeis das empresas envolvidas. O objetivo é identificar a origem, o trânsito, a destinação e os beneficiários finais dos valores movimentados.
A representação da PF relata que mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro mencionavam pagamentos por meio da Entre Investimentos. Um comprovante de fevereiro de 2025 registrava uma remessa de US$ 2 milhões ao Havengate e indicava relação com o projeto cinematográfico.
O fundo havia sido criado nos Estados Unidos para um empreendimento imobiliário no Texas que não saiu do papel, conforme documentos e bases públicas examinados na investigação. Depois de anos sem atividade pública registrada, a estrutura recebeu os valores associados ao financiamento do filme.
A utilização de um veículo originalmente imobiliário para uma produção audiovisual é um dos pontos sob apuração. A PF também quer esclarecer por que os valores previstos no acordo, as remessas ao exterior e as entradas documentadas pela produtora não aparecem de forma plenamente conciliada.
Inquérito permanece sem conclusão
O pedido de aprofundamento menciona suspeitas que ainda dependem de prova pericial e cooperação internacional. A corporação solicitou informações aos Estados Unidos para rastrear o caminho dos recursos e pediu mais prazo ao STF para concluir as diligências.
A investigação também analisa a viabilidade econômica apresentada no plano de negócios do filme. O documento previa cenários de bilheteria entre US$ 45 milhões e US$ 100 milhões, projeções que a PF considerou muito superiores aos referenciais do cinema brasileiro e merecedoras de verificação.
Os próprios investigadores registraram que produções internacionais podem ter custos maiores por elenco, locações em vários países, pós-produção e distribuição. Por isso, o tamanho do orçamento não comprova sozinho irregularidade, embora componha o conjunto de elementos examinados.
Até a conclusão das perícias, a diferença contábil deve ser tratada como questão investigativa, não como valor definitivamente desaparecido. Caberá à PF demonstrar se há documentação complementar, despesas realizadas fora do Brasil ou indícios suficientes para atribuir responsabilidades penais.
Em resumo
A corporação comparou US$ 12,33 milhões enviados ao Havengate com cerca de US$ 2,8 milhões registrados nos documentos da produtora.
Não. A divergência exige perícia e conciliação documental antes de qualquer conclusão criminal.
O acordo de financiamento analisado previa investimento total de US$ 24 milhões.
O Havengate havia sido criado para um projeto imobiliário no Texas e depois recebeu remessas ligadas ao filme.
O inquérito continua aberto, com pedido de mais prazo e busca de informações por cooperação internacional.