ES supera 5 mil pessoas em situação de rua e pressiona rede de assistência, saúde e moradia
Dados do CadÚnico mostram avanço acelerado da população em situação de rua no Espírito Santo; Grande Vitória concentra a maior parte dos registros e o desafio já ultrapassa a assistência social.

O Espírito Santo ultrapassou a marca de 5 mil pessoas registradas em situação de rua em 2026, ampliando um problema que já vinha crescendo de forma acelerada nos últimos anos. Dados reunidos pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, a partir do Cadastro Único, apontam 5.008 pessoas nessa condição no Estado. Em 2025, eram 4.531. Em 2024, estudo do Instituto Jones dos Santos Neves havia identificado 3.643 pessoas cadastradas.
A evolução mostra que a questão deixou de ser um fenômeno restrito a pontos específicos dos centros urbanos. Ela exige atuação simultânea em assistência social, saúde, habitação, trabalho, documentação, segurança alimentar e reconstrução de vínculos familiares.
A Folha Vitória colocou o tema entre os desafios centrais para o próximo governo estadual. A apuração do Notícia ES cruzou os números publicados pelo veículo com dados e políticas oficiais do Governo do Espírito Santo, do Instituto Jones dos Santos Neves e do IBGE.
Grande Vitória concentra a maior parte dos registros
Os dados municipais de 2025 mostram que Vitória liderava o número de pessoas em situação de rua, com 1.146 registros. Serra tinha 722, Vila Velha 645 e Cariacica 332. A concentração metropolitana repete um padrão já identificado anteriormente pelo IJSN.
No estudo Perfil da Pobreza no Espírito Santo 2024, o instituto registrou 3.643 pessoas em situação de rua inscritas no CadÚnico naquele ano. Desse total, 65,5% estavam na Região Metropolitana. Vitória tinha 953 registros, Serra 534 e Vila Velha 514.
A comparação entre os anos precisa ser feita com cuidado. O CadÚnico é uma base administrativa e pode crescer tanto porque mais pessoas chegam às ruas quanto porque o poder público melhora a identificação e o cadastramento de quem já estava nessa condição. O próprio IBGE reconhece que registros administrativos têm limitações e prepara para 2028 o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, justamente para produzir uma contagem padronizada.
Conflitos familiares, drogas, desemprego e perda da moradia se combinam
Não existe uma causa única para alguém passar a viver nas ruas. Dados divulgados a partir dos cadastros mostram que 51% relatam problemas familiares entre os motivos associados à situação de rua. Questões relacionadas ao álcool e outras drogas aparecem em 41%, desemprego em 39% e perda da moradia em 29%.
Esses percentuais podem se sobrepor porque uma mesma pessoa pode enfrentar vários fatores ao mesmo tempo. Perda de renda pode levar à perda da moradia; rompimentos familiares podem retirar a rede de apoio; problemas de saúde mental ou dependência podem agravar a vulnerabilidade.
O diretor-geral do IJSN, Antônio Rocha, destacou em entrevista publicada pela Folha Vitória que os dados indicam forte componente social, sem eliminar o peso das dificuldades econômicas. A leitura é compatível com os estudos do próprio instituto sobre pobreza e vulnerabilidade no Estado.
Saúde registra milhares de atendimentos
A situação de rua também produz demandas específicas para o SUS. Segundo informações da Secretaria de Estado da Saúde divulgadas na reportagem que originou a pauta, municípios capixabas com equipes voltadas a esse público realizaram 27.498 ações de saúde em 2024.
Foram 8.803 atendimentos individuais, 2.390 atendimentos odontológicos e 16.305 procedimentos. Entre as necessidades mais frequentes estão sofrimento psíquico, transtornos relacionados ao uso de substâncias, doenças infectocontagiosas, doenças crônicas, problemas de saúde bucal e ferimentos.
Isso ajuda a explicar por que políticas baseadas apenas em retirar pessoas de determinados espaços públicos tendem a produzir efeito temporário. Sem tratamento, documentação, renda, acolhimento e alternativa habitacional, o retorno às ruas permanece provável.
Estado tem política própria desde 2021
O Espírito Santo instituiu em 2021 a Política Estadual para a População em Situação de Rua, a POLEPOP/ES. A legislação prevê atuação articulada entre Estado, municípios e sociedade civil nas áreas de assistência, saúde, educação, trabalho, habitação e segurança alimentar.
A Secretaria de Estado de Direitos Humanos informa que a implementação é descentralizada e depende da adesão dos municípios. A Secretaria de Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social também promove reuniões com Centros Pop e realizou, em março de 2026, seminário estadual para fortalecer a rede de atendimento.
Em abril, o Estado participou ainda do Mutirão PopRuaJud em Vitória, reunindo serviços de Justiça, saúde, assistência, cidadania e encaminhamento para trabalho por meio do Sine Itinerante.
Aumento coloca políticas existentes sob teste
O crescimento dos registros ocorre apesar da existência de uma política estadual e de serviços especializados. Isso não significa, por si só, que essas políticas tenham fracassado. O número pode refletir aumento real da vulnerabilidade, maior capacidade de cadastramento ou ambos.
Mas o avanço de 3.643 registros em 2024 para 4.531 em 2025 e mais de 5 mil em 2026 torna impossível tratar o tema como marginal. A rede precisa ser dimensionada para uma população maior e mais diversa, com trajetórias que vão de perda recente de renda a décadas de permanência nas ruas.
O próximo governo estadual encontrará um problema que atravessa competências municipais, estaduais e federais. O desafio será coordenar essas estruturas para que o atendimento deixe de funcionar apenas como resposta emergencial e consiga criar rotas reais de saída das ruas.
Um número que ainda não conta toda a história
Os 5.008 registros são o melhor retrato administrativo disponível neste momento, mas não devem ser confundidos com um censo exato. Há pessoas não cadastradas, registros que podem mudar de município e diferenças na capacidade local de busca ativa.
O primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, previsto pelo IBGE para julho de 2028, pretende enfrentar justamente essas lacunas com metodologia uniforme em todo o país.
Até lá, o CadÚnico continua sendo uma das principais referências para orientar políticas públicas. E a mensagem que ele envia ao Espírito Santo em 2026 é difícil de ignorar: a população registrada nas ruas cresceu, ultrapassou 5 mil pessoas e exige respostas que vão muito além de oferecer uma vaga temporária de acolhimento.
Fontes da apuração
- Folha Vitória: dados recentes, distribuição municipal e relatos sobre o tema
- IJSN: Perfil da Pobreza 2024 e registros de população em situação de rua
- SEDH: Política Estadual para a População em Situação de Rua
- Setades: fortalecimento da rede estadual em 2026
- IBGE: metodologia e cronograma do Censo Nacional da População em Situação de Rua