Cultura · 2026-10-30 · Redação Notícia ES

Por que Lula ganhou uma eleição “impossível”? Respondo aqui, com a ajuda de um livro

Acredito de verdade que estas linhas de Graciliano Ramos explicam (sem querer) por que o povo brasileiro, em sua grande e incontestável maioria, decidiu reeleger Luiz Inácio Lula da Silva (“comunista”!!!) no último domingo (25)

Por que Lula ganhou uma eleição “impossível”? Respondo aqui, com a ajuda de um livro
Por que Lula ganhou uma eleição “impossível”? Respondo aqui, com a ajuda de um livro

Sou apaixonado por literatura. Sempre fui, desde que percorri o bê-a-bá. Duas vezes por semana, leio para (e com) minha filhinha antes de dormir. Minha mãe fazia o mesmo comigo.

As informações principais do assunto

Meus irmãos e eu fomos alfabetizados por ela, em um pequeno quadro-negro, na área de serviço de casa. Os livros que minha mãe lia (ou inventava) para mim ficaram maiores.

A leitura me acompanha até hoje e faz parte da minha existência.

Guimarães Rosa e Machado de Assis não contam. Estão em “ôto patamá”, na prateleira dos gênios da literatura universal. Fora eles, tenho um escritor preferido na literatura brasileira.

Contexto e informações complementares

Chama-se Graciliano Ramos (1892-1953), o brilhante autor de Vidas Secas , expoente da segunda geração do movimento modernista.

Li algumas vezes Vidas Secas . Personagens como Fabiano, Sinhá Vitória e a cadela Baleia me acompanharão por toda a vida. Li mais de uma vez São Bernardo . Em deleite, li o genial Angústia . Li quase tudo de Graciliano.

Mas nunca, “nunca antes na história da minha vida”, havia lido esta obra-prima intitulada Memórias do cárcere . E aqui cabe uma breve explicação.

A seu tempo, esse filho da rural Alagoas foi um relutante “comunista”... Isso no auge da revolução bolchevique na União Soviética (1917) – quando fazia sentido ser, defender ou combater o comunismo real (sepultado na História com a queda do Muro de Berlim, em 1989).

Mas, para dizer a verdade, até a implantação do Estado Novo, Ramos era tão somente um simpatizante da causa. Nunca se envolvera pessoalmente. Nunca realmente “militara”. Nem era filiado ao PCB. Jamais cogitara tomar parte de qualquer “plano revolucionário”.

Em 1936, já tendo publicado seus dois primeiros romances ( Caetés e S. Bernardo ), nosso autor ocupava função destacada na burocracia da província: era diretor de Instrução Pública de Alagoas, cargo equivalente ao de secretário estadual de Educação.

Mas, na provinciana Alagoas, sabia-se de sua simpatia pela “causa comunista”. That’s all.

Foi o bastante para que a nascente ditadura de Getúlio Vargas (o Estado Novo), empurrada pelos ventos integralistas (e inspirada pelo nazifascismo ascendente na Europa), concluísse que ele era um “perigo para a sociedade brasileira” e decidisse retirá-lo do convívio social.

Por um ano, entre 1936 e 1937, o gênio Graciliano Ramos passou de prisão em prisão, ao arbítrio do Estado, culminando com sua “estadia” no presídio político da Ilha Grande, na Costa Verde do Rio de Janeiro – hoje, um paraíso turístico.

Para ele e os outros presos, 90 anos atrás, um inferno.

Não foi deliberado. Não foi intencional. Durante todo o período eleitoral este ano, meu livro de cabeceira foi... Memórias do cárcere . Quase toda noite, um capítulo.

Ontem, leitores, por acaso, cheguei ao Capítulo XXVIII (28) da primeira parte do testemunho de Graciliano. Foi pura coincidência, mas... Eureka !

Acredito de verdade que essas linhas de Graciliano Ramos explicam (obviamente, sem querer) por que o povo brasileiro, em sua grande e incontestável maioria, decidiu reeleger Luiz Inácio Lula da Silva (“comunista”!!!) no último domingo (25).

Memórias do cárcere é um livro de testemunho. Não é “baseado em fatos reais”. São os próprios “fatos reais”, filtrados pela ótica do autor.

No capítulo em questão, Graciliano está sendo levado, no porão de um navio, de Recife para o Rio de Janeiro, com outras centenas de presos políticos . Ele não sabe para onde estão indo. Não há processo legal. Não há sequer acusação. Muito menos “culpa formada”.

No porão do navio, sobre rios pútridos de fezes e urina, os “comunistas” se penduram e se amontoam em redes de dormir. No porão, dormir é difícil.

Eis que, em plena madrugada, uma música começa a soar. No começo com cautela e timidez, um dos presos começa a cantarolar e a tamborilar um samba . Isso mesmo: um samba ! Naquele cenário degradante, aviltante, desmoralizante... simplesmente, arriscar um samba !

Aos poucos, perdendo o embaraço, apesar da humilhação e da exaustão, outros presos começam a acompanhá-lo. E de repente, não mais que de repente, a fagulha de vida se espalha. O “som queixoso”, de lamento, ganha forma e volume!

Em resumo

O que aconteceu?

Sou apaixonado por literatura. Sempre fui, desde que percorri o bê-a-bá. Duas vezes por semana, leio para (e com) minha filhinha antes de dormir. Minha mãe fazia o mesmo comigo. Meus irmãos e eu fomos alfabetizados por ela, em um pequeno quadro-negro, na área de serviço de casa. Os livros que minha mãe lia (ou inventava) para mim ficaram maiores. A leitura m

Qual é o ponto principal?

Guimarães Rosa e Machado de Assis não contam. Estão em “ôto patamá”, na prateleira dos gênios da literatura universal. Fora eles, tenho um escritor preferido na literatura brasileira. Chama-se Graciliano Ramos (1892-1953), o brilhante autor de Vidas Secas , expoente da segunda geração do movimento modernista.

Quais são os dados mais importantes?

Li algumas vezes Vidas Secas . Personagens como Fabiano, Sinhá Vitória e a cadela Baleia me acompanharão por toda a vida. Li mais de uma vez São Bernardo . Em deleite, li o genial Angústia . Li quase tudo de Graciliano. Mas nunca, “nunca antes na história da minha vida”, havia lido esta obra-prima intitulada Memórias do cárcere . E aqui cabe uma breve explic

Qual é o contexto?

A seu tempo, esse filho da rural Alagoas foi um relutante “comunista”... Isso no auge da revolução bolchevique na União Soviética (1917) – quando fazia sentido ser, defender ou combater o comunismo real (sepultado na História com a queda do Muro de Berlim, em 1989).

Quais são os próximos desdobramentos?

Mas, para dizer a verdade, até a implantação do Estado Novo, Ramos era tão somente um simpatizante da causa. Nunca se envolvera pessoalmente. Nunca realmente “militara”. Nem era filiado ao PCB. Jamais cogitara tomar parte de qualquer “plano revolucionário”.

Fontes