Proposta de Lara Resende para limitar Selic entra no radar de Lula e assusta mercado
Tese de um dos pais do Plano Real prevê conselho conjunto para metas fiscais e monetárias, com

Uma proposta do economista André Lara Resende , um dos formuladores do Plano Real , para reduzir a taxa Selic por meio de um novo arranjo entre as políticas fiscal e monetária entrou no radar de integrantes do governo, que querem apresentar o tema ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Dados e contexto do setor
A simples avaliação da proposta já provoca apreensão no mercado financeiro.
A discussão ocorre no momento em que economistas de diferentes matizes já cobram que o próximo governo Lula apresente uma agenda fiscal crível.
A preocupação com o rumo das contas públicas levou aliados do petista a defenderem a antecipação da definição da equipe econômica do quarto mandato, para enviar sinalizações mais concretas ao mercado e conter a alta do dólar observada nesta semana após o resultado do segundo turno.
Impactos e informações adicionais
Lara Resende defende há anos que o problema fiscal do Brasil está nos juros, e não no gasto primário (que exclui os juros), e retomou a tese em artigo publicado no fim de setembro .
A Selic elevada faz os encargos da dívida crescerem a um ritmo que a produção de riqueza do país não consegue acompanhar. Para ele, é isso que explica a trajetória explosiva da dívida pública brasileira.
A dívida bruta, hoje, está em 82,9% do PIB, o maior nível desde 2021. Como mostrou a Folha , equilibrar essa conta exigiria um ajuste de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos .
Para Lara Resende, a saída está na outra ponta e passa por uma espécie de "tabelamento" da taxa Selic, hoje em 13,75% ao ano e em dois dígitos desde 2022.
Três integrantes da equipe econômica afirmaram à Folha que existe a tentativa de agendar uma reunião de Lula com economistas que possam trazer visões diferentes para a solução do problema fiscal, mas ainda não há previsão formal para esse encontro, muito menos uma agenda privada entre Lula e Lara Resende.
A Folha também apurou que alguns economistas alinhados ao PT são contra a proposta de Lara Resende e entendem que a simples divulgação de que o governo está cogitando avaliar a proposta cria ruído desnecessário.
O colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo , afirmou neste domingo (1º) que Lara teria encontro com Lula nesta semana, ocasião em que a proposta poderia ser apresentada.
O economista foi procurado por WhatsApp na tarde deste domingo para comentar a proposta, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.
Edinho Silva, presidente do PT nacional, falou em especulações em nota divulgada neste domingo.
"As especulações na área econômica não colaboram com o país e só fazem o jogo dos especuladores, dos oportunistas do mercado, daqueles que apostam contra o governo Lula, contra o futuro do país.
O único que fala em nome do governo Lula na política econômica é o ministro Dario Durigan", disse.
No X, a deputada federal e ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR) disse nesta tarde que o artigo de Lara Resende "é fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira", lido como um sinal de aproximação da teoria do economista à alta cúpula do PT.
A proposta passaria pela criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que definiria metas em conjunto para um horizonte de quatro a cinco anos.
O Banco Central se comprometeria a manter a Selic entre a meta de inflação (3%) e o crescimento nominal potencial do PIB (cerca de 5,5%) —para começar, reduziria a Selic gradualmente ao longo de 12 meses para 7,5%, com uma margem de segurança de 2 pontos em relação ao PIB potencial.
Lara Resende argumenta que o resultado primário (receitas menos despesas, sem contar juros) é ligeiramente negativo: de -0,4%, segundo projeção do FMI (Fundo Monetário Internacional), um dos menores do mundo no ranking do Fundo.
Ele faz um cálculo. Considerando que o custo médio da dívida chegou a 12,68% ao ano e que esse encargo incide sobre a dívida bruta do país, hoje em 82,5% do PIB ou R$ 10,9 trilhões, a dívida cresce R$ 1,4 trilhão por ano. Esse montante é 10,5% do PIB.
Em resumo
Uma proposta do economista André Lara Resende , um dos formuladores do Plano Real , para reduzir a taxa Selic por meio de um novo arranjo entre as políticas fiscal e monetária entrou no radar de integrantes do governo, que querem apresentar o tema ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A discussão ocorre no momento em que economistas de diferentes matizes já cobram que o próximo governo Lula apresente uma agenda fiscal crível.
A preocupação com o rumo das contas públicas levou aliados do petista a defenderem a antecipação da definição da equipe econômica do quarto mandato, para enviar sinalizações mais concretas ao mercado e conter a alta do dólar observada nesta semana após o resultado do segundo turno.
Lara Resende defende há anos que o problema fiscal do Brasil está nos juros, e não no gasto primário (que exclui os juros), e retomou a tese em artigo publicado no fim de setembro . A Selic elevada faz os encargos da dívida crescerem a um ritmo que a produção de riqueza do país não consegue acompanhar.
A dívida bruta, hoje, está em 82,9% do PIB, o maior nível desde 2021. Como mostrou a Folha , equilibrar essa conta exigiria um ajuste de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos . Para Lara Resende, a saída está na outra ponta e passa por uma espécie de "tabelamento" da taxa Selic, hoje em 13,75% ao ano e em dois dígitos desde 2022.