Próximo governo herda juros altos e desafio fiscal
Presidente eleito terá de conciliar queda da inflação, equilíbrio das contas públicas e aumento da produtividade diante de crédito ainda caro

O presidente eleito neste domingo (4) assumirá o país em janeiro com a taxa básica de juros em 13,75% ao ano, crescimento econômico mais lento e pressão para reorganizar as contas públicas. A combinação encarece o crédito, limita investimentos e torna a condução fiscal uma das primeiras tarefas do novo governo.
Reportagem publicada pelo g1 neste domingo reuniu economistas para mapear os principais obstáculos econômicos do próximo mandato. A avaliação central é que a redução sustentável dos juros depende não apenas do comportamento da inflação, mas também da confiança na trajetória da dívida e na capacidade de o governo cumprir as metas fiscais.
O Banco Central manteve a Selic em 13,75% em setembro. No Relatório de Política Monetária daquele mês, a instituição projetou crescimento do Produto Interno Bruto de 1,8% em 2026 e de 1,4% em 2027, após expansões maiores nos dois anos anteriores.
Juros refletem inflação e risco fiscal
A taxa básica é definida pelo Comitê de Política Monetária para conduzir a inflação em direção à meta. Quando os preços resistem à desaceleração ou as expectativas pioram, o espaço para reduzir os juros diminui, mesmo que a atividade econômica já mostre perda de força.
O quadro fiscal entra nessa conta porque uma dívida pública crescente aumenta o risco percebido por investidores. Para compensar a incerteza, o mercado exige retornos maiores nos títulos do governo, movimento que se espalha pelas taxas cobradas de empresas e famílias.
O desafio do novo governo será apresentar medidas de receita e despesa com efeito verificável, além de negociar sua aprovação no Congresso. Cortes sem planejamento podem comprometer serviços e investimentos, enquanto promessas de arrecadação sem base permanente não resolvem o desequilíbrio estrutural.
Famílias e empresas também chegam ao novo ciclo com crédito caro. Juros elevados pesam sobre prestações, capital de giro e decisões de expansão, o que reduz o consumo e adia projetos produtivos. A queda da Selic, por isso, tende a ocorrer de forma gradual e condicionada aos dados de inflação e às expectativas.
Produtividade depende de investimento duradouro
Além da estabilização fiscal, economistas apontam a produtividade como questão decisiva para elevar a renda sem alimentar novos aumentos de preços. O problema envolve qualidade da educação, infraestrutura, ambiente regulatório, inovação e capacidade de empresas adotarem tecnologias mais eficientes.
Obras de transporte, energia e saneamento exigem planejamento que atravesse mais de um ano orçamentário. A previsibilidade das regras pode atrair capital privado, mas não substitui a responsabilidade do poder público de selecionar projetos viáveis e acompanhar sua execução.
O próximo governo também herdará reformas recentes ainda em implantação, como a mudança do sistema tributário sobre o consumo. Uma transição clara pode reduzir custos administrativos e insegurança jurídica; falhas de regulamentação, por outro lado, podem ampliar dúvidas para empresas e entes federativos.
Não há uma medida isolada capaz de resolver o conjunto de problemas. O resultado dependerá da coordenação entre política fiscal, política monetária e ações de longo prazo, com metas que possam ser acompanhadas e corrigidas ao longo do mandato.
Em resumo
A Selic estava em 13,75% ao ano após a reunião do Banco Central de setembro de 2026.
Uma dívida em trajetória incerta eleva o risco percebido e pressiona o custo de financiamento do governo e da economia.
O relatório de setembro projetou crescimento de 1,8% em 2026 e de 1,4% em 2027.
Deputados e senadores terão de analisar medidas de receita, despesa e regulamentação propostas pelo Executivo.
Ela permite ampliar produção e renda com uso mais eficiente de trabalho, capital e tecnologia.