Rose tenta transformar 40 anos de vida pública em caminho de volta ao Senado
Ex-senadora faz da experiência, das emendas e da articulação municipalista o eixo da campanha, mas entra na reta decisiva com 9% na Quaest e rejeição de 48%.

Rose de Freitas voltou à disputa pelo Senado apostando em um ativo que nenhum adversário consegue reproduzir: quatro décadas de presença contínua na política capixaba e nacional. Aos 77 anos, a candidata do MDB tenta converter a própria biografia em voto numa eleição em que o Espírito Santo escolherá dois senadores e na qual a segunda vaga permanece aberta.
O ponto de partida dessa estratégia apareceu com clareza nos primeiros dias de campanha. Rose tem usado a memória de mandatos anteriores, a relação histórica com prefeitos e a defesa das emendas parlamentares para sustentar a ideia de que experiência em Brasília pode produzir resultados concretos para os municípios. A campanha também resgata elementos antigos de identificação eleitoral, inclusive o jingle associado ao seu nome em disputas passadas.
O desafio é transformar lembrança em preferência efetiva. Na pesquisa Quaest divulgada em 27 de agosto, Rose aparece com 9% no cenário consolidado para o Senado. Renato Casagrande lidera com 28%, Sérgio Meneguelli tem 10%, e Fabiano Contarato também marca 9%. Maguinha Malta registra 6%, Evair de Melo 5% e Marcos do Val 4%. Como a margem de erro é de três pontos percentuais, seis nomes aparecem tecnicamente próximos na disputa pela segunda cadeira.
A biografia que sustenta a campanha
A trajetória de Rose começou antes da Constituição de 1988. Segundo a biografia mantida pelo Senado Federal, ela participou de movimentos ligados à anistia e aos direitos humanos no fim da década de 1970, elegeu-se deputada estadual em 1982 e, quatro anos depois, chegou à Câmara dos Deputados como constituinte.
Ao longo da carreira, exerceu seis mandatos de deputada federal e um de senadora, entre 2015 e 2023. Também integrou a chamada Bancada do Batom na Assembleia Nacional Constituinte, grupo suprapartidário de deputadas que atuou na inclusão de direitos das mulheres no novo texto constitucional.
Rose ainda acumulou posições pouco comuns para mulheres na política brasileira daquele período. Foi vice-presidente da Câmara dos Deputados e, no Senado, presidiu a Comissão Mista de Orçamento. Esse histórico ajuda a explicar por que sua campanha insiste em apresentar experiência como capacidade de articulação, principalmente na liberação de recursos e na interlocução com prefeitos.
Municípios e emendas no centro do discurso
Em entrevista concedida ao Folha Vitória, Rose voltou a defender as emendas parlamentares como instrumento de entrega de políticas públicas. Citou escolas técnicas, abastecimento de água e equipamentos destinados a hospitais capixabas como exemplos de iniciativas viabilizadas ao longo de seus mandatos.
A ênfase municipalista tem lógica eleitoral. Prefeitos e lideranças do interior costumam valorizar parlamentares que conseguem abrir portas em ministérios e incluir recursos no Orçamento da União. Durante anos, Rose construiu justamente essa reputação de trânsito institucional.
Ao mesmo tempo, uma candidatura ao Senado em 2026 exige respostas para temas que não estavam no centro das campanhas de duas ou três décadas atrás. Reforma tributária, segurança pública, relação com o Supremo Tribunal Federal, jornada de trabalho, novas tecnologias, apostas online e equilíbrio fiscal passaram a ocupar espaço relevante no debate.
Na entrevista desta semana, Rose evitou posições fechadas em alguns desses assuntos. Sobre a escala 6x1, defendeu diálogo entre trabalhadores e setor produtivo. Também não definiu apoio presidencial e adotou tom cauteloso ao falar da relação com o governo federal. Essa postura pode ampliar a margem de negociação política, mas também cria espaço para adversários cobrarem posições mais claras.
A pesquisa mostra oportunidade e um obstáculo grande
O cenário eleitoral mistura duas informações importantes. Rose está dentro do bloco competitivo pela segunda vaga, com 9% na Quaest, mas apresenta a maior rejeição entre os candidatos ao Senado testados na mesma rodada.
Segundo o levantamento, 48% dos entrevistados afirmam que não votariam nela de jeito nenhum. Outros 27% dizem que poderiam votar, enquanto 25% declaram não conhecê-la. Fabiano Contarato tem 36% de rejeição; Maguinha Malta e Casagrande aparecem com 29%; Marcos do Val, 28%; e Meneguelli, 27%.
Para uma candidata conhecida, rejeição elevada é um problema diferente daquele enfrentado por um nome novo. Quem ainda é desconhecido pode crescer simplesmente ao ganhar exposição. Rose precisa, além de mobilizar quem já conhece sua trajetória, convencer uma parcela do eleitorado que já formou opinião negativa.
Dois votos tornam a corrida menos linear
A eleição para o Senado em 2026 tem uma característica decisiva: cada eleitor capixaba poderá escolher dois candidatos. Isso amplia a importância do chamado segundo voto.
No recorte específico divulgado pelo Poder360, Rose aparece com 10% como segunda escolha, empatada numericamente com Meneguelli e à frente de Contarato, que tem 9%. Casagrande lidera também esse recorte, com 18%. Os indecisos chegam a 22%.
Esse volume de eleitores sem segunda escolha definida mantém a disputa aberta. Para Rose, a estratégia pode passar menos por tentar substituir o primeiro nome já escolhido pelo eleitor e mais por se apresentar como uma opção complementar, baseada em experiência e capacidade de articulação.
O teste de 2026
A candidatura de Rose entra agora numa fase em que a biografia precisa ser convertida em uma agenda atual. A ex-senadora tem currículo, rede política e forte reconhecimento no Estado. Também carrega rejeição elevada e disputa espaço com candidatos de perfis muito diferentes.
As próximas semanas mostrarão se o legado será capaz de produzir crescimento ou se a campanha precisará atualizar mais claramente sua mensagem. A segunda vaga segue aberta, mas o eleitorado ainda não transformou automaticamente experiência em vantagem.