Rose endurece discurso ao Senado, cobra limites ao STF e defende regras mais duras para bets
Candidata do MDB ao Senado pelo Espírito Santo combina defesa das prerrogativas do Congresso com propostas sobre apostas, emendas parlamentares e segurança pública.

Rose de Freitas (MDB), candidata ao Senado pelo Espírito Santo, entrou na reta inicial da campanha com um discurso que tenta ocupar espaço de centro institucional, mas com críticas mais duras ao funcionamento do Supremo Tribunal Federal, à expansão das apostas on-line e à forma como o país enfrenta a segurança pública. Em entrevista concedida nesta quinta-feira (27), ela afirmou que “ninguém está acima da lei, inclusive o STF” e defendeu que o Senado exerça com mais firmeza suas atribuições constitucionais.
A fala ganha peso porque o Senado tem competências diretas sobre a relação entre os Poderes, a aprovação de autoridades e a fiscalização política de instituições nacionais. Ao mesmo tempo, Rose procura associar sua experiência no Congresso a temas que passaram a ocupar o cotidiano das famílias, como apostas esportivas, endividamento, violência e uso de recursos públicos.
Crítica ao STF vem acompanhada de defesa do papel do Senado
Na entrevista que serviu de ponto de partida para esta reportagem, Rose sustentou que ministros do Supremo também estão submetidos à Constituição e às leis. A candidata não apresentou a ideia de ruptura institucional, mas argumentou que o Congresso, especialmente o Senado, precisa exercer suas próprias competências sem abdicar de seu espaço político.
O tema está no centro da campanha de 2026. Nos últimos anos, o STF assumiu papel relevante em disputas sobre emendas parlamentares, transparência orçamentária e investigações de grande impacto político. Em março deste ano, por exemplo, o ministro Flávio Dino estabeleceu novos prazos para que órgãos do Executivo aprimorassem mecanismos de transparência e rastreabilidade das emendas destinadas ao Sistema Único de Saúde. Em agosto, Dino também determinou que a Polícia Federal verificasse possíveis crimes relacionados a irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas da União em transferências especiais conhecidas como “emendas Pix”.
Esse contexto ajuda a explicar por que a relação entre Congresso e Supremo virou tema eleitoral. Rose tenta se apresentar como alguém capaz de defender o Legislativo sem aderir a uma lógica de confronto permanente entre instituições.
Bets entram no discurso como problema social
Outro ponto de destaque foi a defesa de uma regulamentação mais severa das plataformas de apostas. Rose criticou a presença intensa da publicidade das bets e relacionou o problema ao risco de dependência e comprometimento da renda familiar.
O setor já é regulado no Brasil. O Ministério da Fazenda informa que as apostas de quota fixa foram legalizadas pela Lei 13.756, de 2018, e tiveram sua regulamentação ampliada pela Lei 14.790, de 2023, que também alcançou jogos on-line. Desde 1º de janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas podem operar nacionalmente, utilizando domínios terminados em “.bet.br”.
A existência de regras, porém, não encerrou o debate. O governo federal mantém estruturas de fiscalização, identificação de apostadores e combate a operadores irregulares. Em 2026, a legislação também foi reforçada para permitir bloqueio de contas e impedimento de transações destinadas à exploração ilegal de apostas.
Ao defender regras mais rígidas, Rose sinaliza que pretende levar a discussão além da autorização das empresas. O foco de sua fala está principalmente na publicidade, na proteção de consumidores e nos efeitos sociais do jogo. Uma eventual mudança dependeria de nova legislação aprovada pelo Congresso e de regulamentação posterior pelo Executivo.
Emendas parlamentares: candidata defende instrumento, mas tema exige transparência
Rose também se declarou favorável às emendas parlamentares. Para ela, deputados e senadores conhecem demandas locais e podem direcionar recursos para necessidades que nem sempre entram nas prioridades imediatas do Executivo.
As emendas, no entanto, vivem uma fase de forte escrutínio institucional. O STF vem cobrando mecanismos de rastreabilidade, publicidade e prestação de contas. A ADPF 854 se transformou no principal processo sobre o tema e produziu decisões que exigem identificação do caminho percorrido pelo dinheiro público.
Esse é um ponto importante para o eleitor. Defender emendas não significa necessariamente defender falta de controle. O debate atual é justamente sobre como preservar a capacidade do Parlamento de indicar recursos sem abrir espaço para repasses sem transparência, beneficiários pouco identificados ou dificuldades de fiscalização.
Segurança pública aparece como pauta transversal
Na área de segurança, Rose defendeu maior presença do governo federal e integração entre estruturas públicas. O tema tem importância especial no Espírito Santo, onde a disputa ao Senado reúne candidatos ligados a diferentes áreas da segurança, da administração pública e do Congresso.
O Senado participa de debates legislativos sobre sistema penal, financiamento das forças de segurança, crime organizado, fronteiras e alterações constitucionais. Por isso, propostas nessa área precisam ser avaliadas não apenas pelo impacto retórico, mas pela capacidade de articulação com estados e municípios.
Uma candidatura experiente em disputa com campo lotado
Dados do sistema eleitoral mostram Rose registrada como candidata ao Senado pelo MDB, número 156, na coligação “Agora é o Futuro”. O pedido de registro constava em análise na atualização disponível em meados de agosto. A disputa capixaba tem vários nomes conhecidos, o que aumenta a necessidade de cada candidatura construir uma identidade própria.
Rose aposta justamente em sua trajetória política para tentar ocupar esse espaço. O discurso combina experiência congressual, defesa das prerrogativas do Senado e temas de forte repercussão popular. O desafio será transformar posições gerais em propostas legislativas concretas, com texto, metas e mecanismos de fiscalização que possam ser comparados pelos eleitores ao longo da campanha.
Nas próximas semanas, a consistência dessa estratégia poderá ser medida também pela forma como a candidata responderá a temas delicados, como transparência das emendas, limites institucionais entre os Poderes e proteção social diante do crescimento das apostas on-line. São assuntos que exigem mais do que frases de efeito porque dependem diretamente de decisões que passarão pelo Congresso eleito em outubro.