Festa de São Mateus destaca chamado de Jesus e misericórdia acima do ritual vazio
Liturgia de 21 de setembro recorda a vocação do cobrador de impostos e propõe unidade, serviço e acolhimento concreto aos que precisam.

Comunidades católicas celebram nesta segunda-feira, 21 de setembro, a festa de São Mateus, apóstolo e evangelista. A liturgia reúne Efésios 4,1-7.11-13 e Mateus 9,9-13, passagem em que Jesus chama o cobrador de impostos sentado na coletoria e depois se senta à mesa com pessoas vistas como pecadoras. A celebração propõe uma reflexão sobre vocação, unidade e misericórdia aplicada às relações sociais.
O relato evangélico é direto: Jesus vê Mateus, diz que ele o siga e recebe uma resposta imediata. A sequência desloca a atenção do mérito anterior para a possibilidade de mudança. Ao aceitar a mesa compartilhada, Cristo enfrenta a crítica dos fariseus e explica que os doentes, e não os sadios, precisam de médico. A passagem termina com a afirmação de que misericórdia vale mais que sacrifício quando o culto perde o vínculo com o amor.
Um chamado que atravessa barreiras sociais
Cobradores de impostos eram associados ao poder imperial romano e frequentemente tratados como pecadores públicos. O chamado de Mateus, portanto, não escolhe uma figura socialmente prestigiada dentro do ambiente religioso. A decisão de Jesus de entrar em sua casa e comer com outros cobradores transforma uma vocação individual em gesto público de acolhimento, sem apresentar o erro como virtude nem excluir a possibilidade de conversão.
O comentário publicado pelo Vatican News recupera uma reflexão de Bento XVI, pronunciada no Angelus de 8 de junho de 2008. O papa relaciona a cena à profecia de Oseias e resume a verdadeira religião como amor a Deus e ao próximo. A consequência é exigente: ritos, preceitos e identidade religiosa só encontram valor quando conduzem a uma caridade concreta, capaz de alcançar quem está à margem.
Essa leitura oferece um critério para a vida social. Misericórdia não significa ausência de responsabilidade, mas recusa da condenação que elimina qualquer caminho de retorno. Em famílias, igrejas, escolas, trabalho e política, a imagem do médico sugere cuidado direcionado à ferida. O reconhecimento da fragilidade pode abrir espaço para verdade, reparação e mudança sem transformar a pessoa em sinônimo permanente de seu pior ato.
Unidade não é uniformidade
A leitura da Carta aos Efésios completa o tema ao pedir humildade, mansidão, paciência e esforço para guardar a unidade pelo vínculo da paz. O texto fala de um só corpo e um só espírito, mas também enumera diferentes serviços, como apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. A comunidade é apresentada como unidade de fé construída por dons diversos, não como repetição de uma única função.
A combinação das duas leituras evita dois extremos. De um lado, impede que a diversidade seja usada como desculpa para ruptura permanente. De outro, não autoriza que a unidade apague vocações, histórias ou responsabilidades diferentes. O objetivo declarado é capacitar pessoas para o serviço e edificar o corpo de Cristo até a maturidade, o que pressupõe participação e crescimento, e não apenas obediência passiva.
O calendário da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos confirma para 21 de setembro de 2026 as mesmas leituras da festa de São Mateus. Já a página do santo no Vatican News recorda sua identificação como apóstolo e evangelista e apresenta uma imagem preservada na Biblioteca Apostólica Vaticana. Esses registros ligam a memória litúrgica a uma tradição histórica que atravessou séculos de oração, arte e ensino.
O que a celebração pede hoje
A mensagem ganha força num ambiente marcado por rótulos rápidos e conflitos nas redes sociais. A mesa de Mateus desafia comunidades a distinguir discernimento moral de exclusão humana. É possível reconhecer que uma conduta precisa mudar e, ao mesmo tempo, preservar a dignidade de quem a praticou. A misericórdia cristã não chama o erro de acerto; ela impede que o erro seja a última palavra sobre alguém.
Para paróquias e grupos, a festa pode ser traduzida em ações simples: acolher quem chega, visitar pessoas isoladas, facilitar reconciliações, apoiar quem busca recomeço e revisar práticas que mantêm distância entre os considerados dignos e indignos. A leitura de Efésios acrescenta a disciplina da paciência, sem a qual a unidade se torna apenas slogan. Serviço, escuta e verdade são apresentados como partes da mesma vocação.
O próximo passo não é aguardar um novo anúncio institucional, mas levar o conteúdo da celebração para a vida diária. A memória de São Mateus permanece atual porque começa com um encontro e termina em missão. Para os fiéis, a pergunta aberta pela liturgia é se o chamado recebido produz misericórdia real, paz entre diferentes e disposição para sentar à mesa com quem ainda precisa de cuidado e transformação.
Em resumo
A festa de São Mateus, apóstolo e evangelista.
Mateus 9,9-13, que narra o chamado do cobrador de impostos e a mesa com pecadores.
Que o culto e os preceitos precisam conduzir ao amor a Deus e ao próximo, não à exclusão.
Não. Ela preserva a dignidade e a possibilidade de conversão, verdade e reparação.
Guardar a unidade com humildade, paciência e paz, valorizando diferentes dons para o serviço.
Com acolhimento, reconciliação, visita a pessoas isoladas, serviço concreto e abertura a recomeços.
Fontes
- Vatican News, Palavra do dia
- Vatican News, Santo do dia
- Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos