Política Nacional · 2026-09-21 · Redação Notícia ES

Sarrubbo vê viés político em pressão dos EUA sobre PCC e CV

Ex-secretário nacional de Segurança Pública afirma que cooperação deve continuar, mas rejeita ações estrangeiras sem participação brasileira.

Sarrubbo vê viés político em pressão dos EUA sobre PCC e CV
Mario Sarrubbo durante entrevista ao programa Ponto de Vista, da Veja. Crédito: Reprodução/YouTube/Veja.

O ex-secretário nacional de Segurança Pública Mario Sarrubbo afirmou, em entrevista divulgada nesta segunda-feira, 21 de setembro, que a pressão do governo dos Estados Unidos sobre a atuação do Brasil contra o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho tem, na avaliação dele, componente político e eleitoral. Ele disse temer medidas que ultrapassem a cooperação entre os países e atinjam a soberania brasileira.

A declaração foi dada ao programa Ponto de Vista, da Veja. Sarrubbo deixou a secretaria em fevereiro de 2026 e passou a integrar o Conselho Nacional de Segurança Pública e Defesa Social. Sua fala é uma interpretação política, não uma comprovação de que o governo americano planeje intervir em território brasileiro. O contexto inclui críticas de Washington ao combate às facções e discussões sobre novas sanções a pessoas e empresas ligadas ao crime organizado.

Segundo Sarrubbo, não houve mudança na capacidade brasileira que justificasse tratar o país como omisso. Ele citou operações de rastreamento financeiro contra organizações criminosas e defendeu que o combate a PCC e CV priorize lavagem de dinheiro, recuperação de ativos e integração policial. A posição não significa negar a gravidade das facções; o argumento é que a resposta deve ser liderada pelo Estado brasileiro.

Classificação como terrorismo divide governos

Um dos pontos de atrito é a hipótese de enquadrar facções brasileiras como organizações terroristas. O governo Lula rejeita a equiparação jurídica, embora reconheça o impacto violento dos grupos. Defensores da classificação sustentam que ela ampliaria instrumentos de sanção e cooperação. Críticos afirmam que o rótulo pode misturar crime organizado voltado ao lucro com terrorismo de finalidade política e abrir espaço para medidas externas mais agressivas.

Sarrubbo disse temer operações realizadas na América do Sul sem participação das autoridades brasileiras, especialmente em áreas de fronteira e na Amazônia. Ele defendeu cooperação internacional, compartilhamento de inteligência e ações coordenadas, desde que o Brasil participe das decisões e preserve comando sobre seu território.

Reportagem da Folha informou que órgãos americanos avaliam novas sanções contra indivíduos e empresas supostamente ligados ao PCC e ao CV. Sanções financeiras são diferentes de ação militar: podem bloquear ativos sob jurisdição americana e restringir negócios com pessoas designadas. Cada medida exige ato formal e identificação dos alvos. Não há, nas fontes consultadas, anúncio oficial de operação dos EUA dentro do Brasil.

Armas e dinheiro entram no debate

O ex-secretário afirmou que uma contribuição importante dos Estados Unidos seria reforçar o controle sobre armas e fuzis que saem daquele país e chegam ao Brasil. O tráfico internacional de armamentos, a circulação de drogas e a lavagem de recursos exigem cooperação transnacional porque as cadeias atravessam fronteiras e sistemas financeiros.

Ao mencionar a Operação Carbono Oculto, Sarrubbo destacou ações que atingem o núcleo econômico das organizações. Investigações recentes buscaram identificar uso de empresas, combustíveis, fintechs e outros instrumentos para movimentar dinheiro ilegal. O alcance de cada operação depende dos autos; não se deve atribuir ligação criminosa a empresas ou pessoas sem indiciamento, denúncia ou decisão correspondente.

A estratégia financeira complementa prisões e apreensões. Bloquear patrimônio, interromper empresas de fachada e recuperar ativos pode reduzir capacidade de compra de armas e corrupção. Ao mesmo tempo, medidas dessa natureza precisam de controle judicial, provas rastreáveis e cooperação com outros países para evitar que recursos migrem para novas jurisdições.

Viés eleitoral é avaliação atribuída

Sarrubbo relacionou a pressão americana ao apoio declarado de Donald Trump a Flávio Bolsonaro. Essa conexão representa a leitura política do entrevistado. O governo dos Estados Unidos sustenta que suas iniciativas buscam combater narcotráfico e redes financeiras criminosas. Sem documentos que demonstrem finalidade eleitoral específica, a reportagem mantém a alegação atribuída ao ex-secretário.

O contraponto brasileiro também não elimina críticas legítimas à eficácia das políticas nacionais. PCC e CV mantêm influência territorial, redes interestaduais e conexões internacionais. Avaliar a resposta exige dados de homicídios, apreensões, lavagem, condenações e recuperação patrimonial, além de transparência sobre operações conjuntas.

Próximos passos

O debate deverá avançar com eventuais atos formais do governo americano e respostas diplomáticas brasileiras. Se houver designações ou sanções, será possível identificar base legal, alvos e efeitos concretos. No Brasil, Congresso, Executivo e Judiciário continuarão discutindo como tipificar e enfrentar facções sem confundir cooperação policial com renúncia de soberania.

Até agora, o fato novo é a manifestação pública de Sarrubbo, que defende cooperação condicionada à participação do Brasil e vê risco político na pressão externa. A existência de crime organizado transnacional é reconhecida pelos dois países; a divergência está nos instrumentos, na classificação jurídica e nos limites da atuação estrangeira.

Em resumo

O que Mario Sarrubbo afirmou?

Que a pressão dos EUA sobre PCC e CV tem, na avaliação dele, componente político e pode ameaçar a soberania.

Sarrubbo rejeita cooperação com os Estados Unidos?

Não. Ele defende cooperação, desde que o Brasil participe das operações em seu território.

Os EUA anunciaram operação militar no Brasil?

Não há anúncio desse tipo nas fontes consultadas.

Por que a classificação de terrorismo é controversa?

Porque pode ampliar sanções, mas também confundir crime organizado voltado ao lucro com terrorismo de finalidade política.

Qual estratégia Sarrubbo destacou contra facções?

Rastreamento financeiro, recuperação de ativos, integração policial e controle do tráfico de armas.

O viés eleitoral foi comprovado?

Não. Trata-se de avaliação política atribuída ao ex-secretário.

Fontes