Sarrubbo vê viés político em pressão dos EUA sobre PCC e CV
Ex-secretário nacional de Segurança Pública afirma que cooperação deve continuar, mas rejeita ações estrangeiras sem participação brasileira.

O ex-secretário nacional de Segurança Pública Mario Sarrubbo afirmou, em entrevista divulgada nesta segunda-feira, 21 de setembro, que a pressão do governo dos Estados Unidos sobre a atuação do Brasil contra o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho tem, na avaliação dele, componente político e eleitoral. Ele disse temer medidas que ultrapassem a cooperação entre os países e atinjam a soberania brasileira.
A declaração foi dada ao programa Ponto de Vista, da Veja. Sarrubbo deixou a secretaria em fevereiro de 2026 e passou a integrar o Conselho Nacional de Segurança Pública e Defesa Social. Sua fala é uma interpretação política, não uma comprovação de que o governo americano planeje intervir em território brasileiro. O contexto inclui críticas de Washington ao combate às facções e discussões sobre novas sanções a pessoas e empresas ligadas ao crime organizado.
Segundo Sarrubbo, não houve mudança na capacidade brasileira que justificasse tratar o país como omisso. Ele citou operações de rastreamento financeiro contra organizações criminosas e defendeu que o combate a PCC e CV priorize lavagem de dinheiro, recuperação de ativos e integração policial. A posição não significa negar a gravidade das facções; o argumento é que a resposta deve ser liderada pelo Estado brasileiro.
Classificação como terrorismo divide governos
Um dos pontos de atrito é a hipótese de enquadrar facções brasileiras como organizações terroristas. O governo Lula rejeita a equiparação jurídica, embora reconheça o impacto violento dos grupos. Defensores da classificação sustentam que ela ampliaria instrumentos de sanção e cooperação. Críticos afirmam que o rótulo pode misturar crime organizado voltado ao lucro com terrorismo de finalidade política e abrir espaço para medidas externas mais agressivas.
Sarrubbo disse temer operações realizadas na América do Sul sem participação das autoridades brasileiras, especialmente em áreas de fronteira e na Amazônia. Ele defendeu cooperação internacional, compartilhamento de inteligência e ações coordenadas, desde que o Brasil participe das decisões e preserve comando sobre seu território.
Reportagem da Folha informou que órgãos americanos avaliam novas sanções contra indivíduos e empresas supostamente ligados ao PCC e ao CV. Sanções financeiras são diferentes de ação militar: podem bloquear ativos sob jurisdição americana e restringir negócios com pessoas designadas. Cada medida exige ato formal e identificação dos alvos. Não há, nas fontes consultadas, anúncio oficial de operação dos EUA dentro do Brasil.
Armas e dinheiro entram no debate
O ex-secretário afirmou que uma contribuição importante dos Estados Unidos seria reforçar o controle sobre armas e fuzis que saem daquele país e chegam ao Brasil. O tráfico internacional de armamentos, a circulação de drogas e a lavagem de recursos exigem cooperação transnacional porque as cadeias atravessam fronteiras e sistemas financeiros.
Ao mencionar a Operação Carbono Oculto, Sarrubbo destacou ações que atingem o núcleo econômico das organizações. Investigações recentes buscaram identificar uso de empresas, combustíveis, fintechs e outros instrumentos para movimentar dinheiro ilegal. O alcance de cada operação depende dos autos; não se deve atribuir ligação criminosa a empresas ou pessoas sem indiciamento, denúncia ou decisão correspondente.
A estratégia financeira complementa prisões e apreensões. Bloquear patrimônio, interromper empresas de fachada e recuperar ativos pode reduzir capacidade de compra de armas e corrupção. Ao mesmo tempo, medidas dessa natureza precisam de controle judicial, provas rastreáveis e cooperação com outros países para evitar que recursos migrem para novas jurisdições.
Viés eleitoral é avaliação atribuída
Sarrubbo relacionou a pressão americana ao apoio declarado de Donald Trump a Flávio Bolsonaro. Essa conexão representa a leitura política do entrevistado. O governo dos Estados Unidos sustenta que suas iniciativas buscam combater narcotráfico e redes financeiras criminosas. Sem documentos que demonstrem finalidade eleitoral específica, a reportagem mantém a alegação atribuída ao ex-secretário.
O contraponto brasileiro também não elimina críticas legítimas à eficácia das políticas nacionais. PCC e CV mantêm influência territorial, redes interestaduais e conexões internacionais. Avaliar a resposta exige dados de homicídios, apreensões, lavagem, condenações e recuperação patrimonial, além de transparência sobre operações conjuntas.
Próximos passos
O debate deverá avançar com eventuais atos formais do governo americano e respostas diplomáticas brasileiras. Se houver designações ou sanções, será possível identificar base legal, alvos e efeitos concretos. No Brasil, Congresso, Executivo e Judiciário continuarão discutindo como tipificar e enfrentar facções sem confundir cooperação policial com renúncia de soberania.
Até agora, o fato novo é a manifestação pública de Sarrubbo, que defende cooperação condicionada à participação do Brasil e vê risco político na pressão externa. A existência de crime organizado transnacional é reconhecida pelos dois países; a divergência está nos instrumentos, na classificação jurídica e nos limites da atuação estrangeira.
Em resumo
Que a pressão dos EUA sobre PCC e CV tem, na avaliação dele, componente político e pode ameaçar a soberania.
Não. Ele defende cooperação, desde que o Brasil participe das operações em seu território.
Não há anúncio desse tipo nas fontes consultadas.
Porque pode ampliar sanções, mas também confundir crime organizado voltado ao lucro com terrorismo de finalidade política.
Rastreamento financeiro, recuperação de ativos, integração policial e controle do tráfico de armas.
Não. Trata-se de avaliação política atribuída ao ex-secretário.