Avanço de facções coloca segurança no topo das preocupações do eleitor do Nordeste
Pesquisa Datafolha e dados de violência mostram que segurança pública ganhou peso eleitoral na região; facções disputam territórios e obrigam candidatos governistas e de oposição a endurecer propostas.

A segurança pública chegou ao topo das preocupações do eleitor do Nordeste em meio ao avanço de facções criminosas, disputas territoriais e episódios de violência que passaram a influenciar diretamente as campanhas estaduais e presidencial. Pesquisa Datafolha realizada em março apontou que 26% dos eleitores nordestinos citaram a segurança como principal problema da região, percentual superior ao observado nas demais regiões do país.
O tema ganhou nova dimensão na campanha de 2026 porque organizações criminosas nacionais e grupos locais ampliaram presença em estados como Bahia, Ceará e Pernambuco, segundo dados reunidos por órgãos de segurança e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Nordeste concentra dezenas de organizações criminosas
Levantamento da Secretaria Nacional de Políticas Penais identifica 46 organizações criminosas na região, o maior número entre as cinco regiões brasileiras. Entre elas estão facções de alcance nacional, como PCC e Comando Vermelho, além de grupos locais que disputam bairros, rotas e mercados ilegais.
Em algumas áreas, as facções passaram a explorar serviços clandestinos, extorquir comerciantes e expulsar moradores de suas casas. Essa dinâmica aproxima determinados grupos de práticas tradicionalmente associadas a milícias.
Bahia e Ceará enfrentam quadro mais difícil
A Bahia registrou em 2025 o maior número absoluto de mortes violentas intencionais do país, enquanto o Ceará apareceu entre os estados com maior volume de ocorrências. Municípios nordestinos também dominaram a lista das cidades mais violentas no último anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Os governos estaduais afirmam que operações policiais, investimentos em inteligência e integração entre forças de segurança têm produzido resultados. Na Bahia, por exemplo, houve redução de mortes violentas nos últimos anos, embora a disputa entre facções continue intensa.
Piauí aparece como contraponto
O Piauí foi citado como exemplo de melhora recente. O estado registrou redução de 15,7% das mortes violentas no último ano e ganhou projeção nacional com um programa de recuperação de celulares roubados, posteriormente replicado em outras localidades.
A comparação entre estados mostra que o problema não é uniforme. Há diferenças de dinâmica criminal, capacidade policial, sistema prisional, urbanização e presença de rotas do tráfico.
Tema reorganiza campanhas
Candidatos de oposição passaram a colocar segurança no centro de seus programas. Na Bahia, ACM Neto adotou o slogan “Mudança com Segurança” e promete uma estrutura específica de coordenação do setor. No Ceará, Ciro Gomes usa discurso duro contra facções e critica a capacidade do governo estadual de retomar territórios.
Governadores governistas também endureceram a linguagem. Elmano de Freitas, no Ceará, tem defendido operações policiais e resposta mais firme ao crime organizado. Jerônimo Rodrigues, na Bahia, destaca investimentos e queda de alguns indicadores.
Presidenciáveis incorporam propostas
A segurança também entrou na disputa pelo Planalto. Flávio Bolsonaro defende medidas mais duras, incluindo redução da maioridade penal em determinados casos. Romeu Zema e Ronaldo Caiado propõem expansão do sistema prisional e maior integração contra facções. Renan Santos adota retórica de enfrentamento direto ao crime.
Lula, por sua vez, apresenta como resposta federal a aprovação do Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, a PEC da Segurança Pública e operações da Polícia Federal contra redes financeiras ligadas ao crime organizado.
Medo chega também ao interior
A percepção de insegurança não se restringe às grandes capitais. Reportagem da Folha mostrou moradores de áreas rurais de Pernambuco e do Ceará relatando medo de assaltos, facções e expansão da violência para cidades antes consideradas tranquilas.
Esse sentimento tende a ter peso eleitoral porque segurança é uma política de execução cotidiana e seus resultados são percebidos diretamente pela população. Quando o medo se torna parte da rotina, promessas abstratas perdem espaço para propostas de policiamento, investigação, sistema prisional e controle territorial.
Com pouco mais de um mês até a eleição, a segurança pública deve permanecer entre os temas mais disputados no Nordeste e pode influenciar tanto eleições estaduais quanto a corrida presidencial.