Segurança Pública · 2026-09-02 · Redação Notícia ES

Sete PMs viram réus por atuação em ocorrência que terminou com morte de casal em Cariacica

Justiça Militar recebeu denúncia contra sete policiais por suposto descumprimento de normas durante ocorrência de abril; dois deles também respondem por abandono de posto. Processo dos homicídios tramita separadamente.

Sete PMs viram réus por atuação em ocorrência que terminou com morte de casal em Cariacica
Sete PMs viram réus por atuação em ocorrência que terminou com morte de casal em Cariacica

Sete policiais militares do Espírito Santo se tornaram réus por supostas irregularidades cometidas durante a ocorrência que terminou com as mortes de Francisca Chaguiana Dias Viana, de 31 anos, e Daniele Toneto Rocha, de 45, em Cruzeiro do Sul, Cariacica. A denúncia apresentada pelo Ministério Público do Espírito Santo foi recebida pela Justiça Militar em 27 de agosto. O caso principal, que apura os homicídios, tramita separadamente e tem como réu o cabo Luiz Gustavo Xavier do Vale, apontado como autor dos disparos.

Segundo as informações divulgadas sobre a decisão, Hildebrando da Silva Santos, Edson Luiz da Silva Verona, Felipe Gonçalves Vieira, Lucas Nogueira Oliveira, Valfril do Carmo Carreiro, Hilário Antônio Nunes Loureiro Júnior e Eduardo Ferro Coradini respondem pelo crime militar de inobservância de lei, regulamento ou instrução. Hilário e Eduardo também foram denunciados por abandono de posto. O recebimento da denúncia não representa condenação: abre a fase processual em que os acusados serão citados e poderão apresentar defesa.

O que a acusação atribui aos sete policiais

A imputação feita pelo Ministério Público está relacionada à conduta dos militares na ocorrência de 8 de abril. De acordo com a acusação, os policiais teriam descumprido normas aplicáveis ao serviço e à atuação funcional. No Código Penal Militar, a inobservância de lei, regulamento ou instrução pode ser caracterizada quando o militar deixa de cumprir regra que deveria observar no exercício da função e disso resulta prejuízo à administração militar.

Dois dos réus, Hilário Antônio Nunes Loureiro Júnior e Eduardo Ferro Coradini, também respondem por abandono de posto. As acusações não significam que os sete tenham sido responsabilizados pelos homicídios. A apuração sobre as mortes das duas mulheres está em outro processo, no qual Luiz Gustavo Xavier do Vale figura como acusado pelos disparos.

Militares permanecem fora das atividades operacionais

A Corregedoria da Polícia Militar informou que os sete policiais permanecem afastados das funções operacionais e foram direcionados para atividades administrativas. O afastamento havia sido adotado ainda durante a apuração da ocorrência e foi mantido enquanto avançam os procedimentos disciplinares e judiciais.

Em manifestação anterior sobre o caso, a Corregedoria afirmou que os fatos que envolvem policiais militares são apurados dentro das atribuições legais da corporação, com observância do devido processo, dos direitos das partes e da regularidade das investigações. A medida administrativa não substitui a análise da Justiça Militar nem antecipa eventual punição disciplinar.

Crime ocorreu após discussão em imóvel residencial

As mortes aconteceram em 8 de abril, no bairro Cruzeiro do Sul. Segundo a reconstrução divulgada desde o início do caso, Francisca e Daniele moravam no mesmo prédio que a ex-companheira de Luiz Gustavo, mas em andares diferentes. As moradoras compartilhavam a estrutura de energia elétrica do imóvel e havia histórico de desentendimentos relacionados ao uso da instalação.

No dia do crime, houve nova discussão. A ex-companheira do policial relatou ter entrado em contato com ele depois de um conflito envolvendo as duas mulheres e o filho do ex-casal. Luiz Gustavo foi ao endereço acompanhado de outros policiais. Uma câmera de segurança registrou o momento em que Francisca e Daniele foram baleadas após a chegada do grupo.

A atuação dos policiais que estavam presentes passou a ser questionada ainda nas primeiras semanas depois do crime. Em abril, o Ministério Público defendeu o afastamento de agentes investigados por possível omissão e pediu a suspensão do porte de armas de parte deles. A Corregedoria também retirou os militares das ruas e os colocou em funções internas.

Processo do cabo segue para o Tribunal do Júri

Luiz Gustavo Xavier do Vale responde em processo separado. O caso foi remetido ao Tribunal do Júri da Comarca de Cariacica, instância responsável por julgar crimes dolosos contra a vida. Até o momento, não há data pública de julgamento. O policial permanece preso no Presídio Militar desde abril.

A separação dos processos decorre da natureza das acusações. Enquanto Luiz Gustavo responde pelos homicídios, os outros sete militares são processados, neste momento, por crimes relacionados à atuação funcional durante a ocorrência. A eventual responsabilidade de cada acusado será definida ao longo da instrução, com produção de provas, depoimentos e exercício da defesa.

Próximos passos

Com o recebimento da denúncia, a Justiça Militar deverá promover a citação dos sete réus para apresentação das defesas. Depois, o processo seguirá com as etapas de instrução e julgamento. As acusações poderão ser contestadas pelos advogados dos policiais, e somente uma decisão judicial definitiva poderá estabelecer responsabilidade criminal.

O caso segue sob atenção porque envolve, ao mesmo tempo, a apuração de duas mortes, a conduta funcional de policiais que acompanharam a ocorrência e o controle institucional sobre a atuação das forças de segurança. O espaço permanece aberto para manifestação das defesas dos acusados e para novas informações oficiais da Polícia Militar, do Ministério Público e do Judiciário.

Fontes