TSE admite ação contra Lula e Alckmin por desfile de Carnaval; defesa terá cinco dias
Corregedor aceitou a tramitação de ação apresentada por Flávio Bolsonaro sobre financiamento e exposição do desfile; decisão ainda não julga as acusações.

BRASÍLIA. O corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Antonio Carlos Ferreira, admitiu na sexta-feira, 18 de setembro, uma ação apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral pelo candidato Flávio Bolsonaro (PL) contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). O processo investigará alegações de abuso de poder político e econômico e uso indevido dos meios de comunicação relacionadas ao desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval de 2026.
A decisão abre a tramitação e determina que Lula e Alckmin sejam notificados. Os dois terão cinco dias, contados da notificação, para apresentar defesa. A admissão da ação é uma etapa processual: não significa que o TSE tenha considerado verdadeiras as acusações, nem representa condenação, cassação ou declaração de inelegibilidade.
O desfile ocorreu em 15 de fevereiro, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. Estreante no Grupo Especial, a Acadêmicos de Niterói abriu a primeira noite com o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, que narrou passagens da trajetória pessoal, sindical e política do presidente. Lula acompanhou a apresentação de um camarote com aliados.
O que a ação questiona
Flávio Bolsonaro sustenta na ação, segundo as reportagens da Revista Oeste e da CNN Brasil, que houve possível uso eleitoral do desfile em favor do candidato à reeleição. A acusação cita repasses da Prefeitura do Rio de Janeiro e da Embratur à escola de samba depois da definição do enredo e pede que a Justiça Eleitoral examine se os recursos públicos produziram vantagem política indevida.
A representação também questiona a transmissão do desfile pela televisão aberta e pela internet. Para o autor, a exposição de um enredo dedicado a Lula teria ampliado o tempo de divulgação do presidente e configurado campanha antecipada. Esses pontos são alegações da parte que apresentou a ação e ainda serão submetidos ao contraditório, à produção de provas e à avaliação do tribunal.
Como contraponto, os órgãos públicos envolvidos afirmaram que o apoio financeiro ao Carnaval não foi direcionado exclusivamente à Acadêmicos de Niterói. Conforme registrado pelas duas reportagens, Prefeitura e Embratur sustentam que os recursos integram mecanismos de apoio às escolas de samba e à realização geral do evento. A regularidade, a finalidade e o eventual impacto eleitoral dos repasses serão examinados no processo.
Aceite não antecipa julgamento
A providência tomada pelo corregedor verifica se a petição reúne condições para seguir e permite a formação do contraditório. Nesta fase, Lula e Alckmin ainda apresentarão suas versões e documentos. Só depois das manifestações e das etapas de instrução o TSE poderá analisar o mérito das acusações. Portanto, não é correto tratar a abertura como uma decisão definitiva sobre abuso de poder.
O abuso de poder político ocorre, em termos gerais, quando uma autoridade utiliza a posição ou a estrutura pública de maneira capaz de afetar a normalidade e a legitimidade da eleição. O abuso econômico envolve emprego excessivo ou desviado de recursos para influenciar a disputa. A caracterização depende da gravidade das circunstâncias e de provas, não apenas da existência de gasto público ou de repercussão na imprensa.
O uso indevido dos meios de comunicação também exige análise do contexto, do alcance e da finalidade da exposição. No caso do Carnaval, o tribunal terá de avaliar os argumentos sobre a transmissão de um evento cultural de grande interesse público e a tese de que a homenagem teria funcionado como promoção eleitoral. As defesas poderão contestar tanto os fatos quanto o enquadramento jurídico apresentado pelo autor.
Outros processos envolvem o mesmo desfile
O episódio já aparece em outras ações eleitorais, mas elas não se confundem automaticamente com o processo agora admitido pelo corregedor. Em agosto, a ministra Estela Aranha determinou que o Instagram fornecesse dados cadastrais ligados ao presidente da Acadêmicos de Niterói para tentar viabilizar a citação da escola em uma ação movida pelo partido Missão sobre suposta propaganda antecipada.
Segundo a CNN Brasil, aquela medida foi necessária porque tentativas anteriores de localizar formalmente um representante da agremiação não tiveram êxito. O partido Novo também apresentou questionamento semelhante. A existência de processos paralelos mostra que o desfile passou a ser examinado sob diferentes alegações, mas cada ação tem partes, pedidos e provas próprios.
A Acadêmicos de Niterói terminou o Carnaval na última colocação do Grupo Especial e foi rebaixada para a Série Ouro. O resultado artístico não interfere, por si só, na análise eleitoral. O ponto central para o TSE será apurar se a homenagem, o financiamento e a transmissão ultrapassaram os limites de uma manifestação cultural e produziram benefício eleitoral juridicamente relevante.
Próximos passos no TSE
Após as notificações, Lula e Alckmin terão cinco dias para responder. O tribunal poderá solicitar documentos, ouvir envolvidos e analisar a origem e a destinação dos recursos mencionados. As partes também poderão apresentar provas sobre o formato do apoio público ao Carnaval, a escolha do enredo e o alcance das transmissões.
Não havia, até a admissão da ação, manifestação de mérito dos dois representados reproduzida nas reportagens consultadas. A defesa formal será o primeiro momento para contestar as acusações dentro deste processo. Encerrada a instrução, caberá à Justiça Eleitoral decidir se houve irregularidade e quais consequências seriam aplicáveis, sempre com possibilidade de recursos previstos na legislação.
Em resumo
Não. O corregedor-geral apenas admitiu a tramitação da ação. As acusações ainda serão contestadas, instruídas e julgadas.
A ação foi apresentada ao TSE pelo candidato Flávio Bolsonaro, do PL.
O autor alega abuso de poder político e econômico e uso indevido dos meios de comunicação por causa do financiamento e da transmissão do desfile dedicado a Lula.
Eles terão cinco dias para apresentar defesa depois de serem formalmente notificados.
Prefeitura do Rio e Embratur afirmam que o apoio financeiro é concedido às escolas de samba e à realização geral do Carnaval, e não exclusivamente à homenagem a Lula.
As defesas serão notificadas, documentos e outras provas poderão ser produzidos e, somente depois da instrução, a Justiça Eleitoral analisará o mérito.