Ueno Bank: escândalo que levou à queda do presidente do Paraguai pode ser comparado ao do Banco Master?
Crescimento rápido, exposição relevante de recursos públicos e relações próximas com o mundo político estão entre as semelhanças dos dois casos. Mas analistas apontam diferenças relevantes

A liquidação do banco Ueno desencadeou uma forte crise política no Paraguai, com a renúncia do presidente do Banco Central do País e depois, o impeachment e a prisão do agora ex-presidente Santiago Peña.
Dados e contexto do setor
Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do banco Ueno, até março de 2025. O então presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo Spalding, também havia comandado o Ueno antes de assumir o cargo público.
A crise bancária, de um banco com fortes laços políticos e envolvendo montante relevante de recursos públicos, incluindo aposentadorias, levou a comparações entre à crise do Ueno com a do banco Master , no Brasil.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, apontam que, de fato, há muitos pontos de contato entre os casos, mas também diferenças relevantes, como a escala do Ueno na economia paraguaia, e a proximidade direta do banco com o presidente do país – que já estava politicamente fragilizado por crises internas dentro de seu partido, o Colorado, o que acabou precipitando sua rápida queda.
Detalhes e consequências do caso
"É impressionante a semelhança entre os casos Master e Ueno. Nos dois houve exposição relevante de recursos públicos, inclusive da previdência, crescimento muito rápido apoiado em ativos frágeis e relações próximas com o mundo político", afirma Thiago Amâncio, diretor associado da equipe de riscos geopolíticos da consultoria Control Risks.
"Mas a diferença fundamental é a dimensão do Ueno no sistema paraguaio, já que quase metade da população tem conta no banco.
É uma escala completamente diferente da do Master, que se tivesse um tamanho equivalente teria provocado uma crise financeira imensa por aqui, não só política."
O Ueno surgiu da aquisição em 2021 da antiga Financiera El Comercio pelo Grupo Vázquez. A marca Ueno foi lançada em fevereiro de 2022.
Em novembro do ano seguinte a instituição recebeu autorização do Banco Central do Paraguai (BCP) para operar como banco. Em 2024, incorporou o Visión Banco, ampliando sua carteira de clientes e operações.
Assim, pouco mais de três anos, o banco tornou-se um dos principais do Paraguai e, segundo dados da própria instituição, tinha 3 milhões de clientes, o equivalente a 60% da população adulta do país.
Já no caso do Master, Daniel Vorcaro entrou como sócio do então Banco Máxima em 2017. Dois anos depois, o Banco Central do Brasil autorizou a transferência do controle da instituição para o banqueiro e, em 2021, o banco passou a se chamar Banco Master.
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As estratégias dos bancos para conquistar clientes, porém, foram diferentes: enquanto o Ueno apostou na abertura digital de contas, em descontos e na devolução de parte do valor das compras, o Master atraiu investidores com CDBs (Certificados de depósito bancário) que ofereciam remuneração muito acima da média do mercado.
"O Ueno era um banco de varejo, que cresceu ampliando a base de clientes, então ele foi agressivo no cartão de crédito e abertura de contas, enquanto o Master estava mais preocupado em comprar ativos, captar dinheiro e usar esse dinheiro para alavancar ativos com baixa liquidez", observa Alexandre Jorge Chaia, professor nas disciplinas de gestão de riscos financeiros e produtos bancários no Insper.
"Os dois cresceram bastante, mas foi em ritmos bem diferentes. O Ueno Bank, em três anos, saiu de um banco inexpressivo para um dos principais bancos do país. Já no caso do Master, foram seis anos de crescimento, mas do ponto de vista de relevância, nunca foi grande."
No Paraguai, o Ueno administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, entre eles fundos do Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pelo pagamento de aposentadorias, pensões e outros benefícios.
No Brasil, regimes próprios de previdência de Estados e municípios investiram cerca de R$ 1,8 bilhão em títulos emitidos pelo Master, segundo dados do Ministério da Previdência Social.
No Paraguai, o Banco Central apontou empréstimos considerados excessivos a empresas ligadas ao grupo controlador do Ueno, o Vázquez, que teve Santiago Peña como acionista até o ano passado e o ex-presidente do Banco Central paraguaio como executivo.
Em resumo
A liquidação do banco Ueno desencadeou uma forte crise política no Paraguai, com a renúncia do presidente do Banco Central do País e depois, o impeachment e a prisão do agora ex-presidente Santiago Peña.
Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do banco Ueno, até março de 2025. O então presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo Spalding, também havia comandado o Ueno antes de assumir o cargo público.
A crise bancária, de um banco com fortes laços políticos e envolvendo montante relevante de recursos públicos, incluindo aposentadorias, levou a comparações entre à crise do Ueno com a do banco Master , no Brasil.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, apontam que, de fato, há muitos pontos de contato entre os casos, mas também diferenças relevantes, como a escala do Ueno na economia paraguaia, e a proximidade direta do banco com o presidente do país – que já estava politicamente fragilizado por crises internas dentro de seu partido, o Colorado, o que acabou precipitando sua rápida queda.
"É impressionante a semelhança entre os casos Master e Ueno. Nos dois houve exposição relevante de recursos públicos, inclusive da previdência, crescimento muito rápido apoiado em ativos frágeis e relações próximas com o mundo político", afirma Thiago Amâncio, diretor associado da equipe de riscos geopolíticos da consultoria Control Risks.