Verba pública chega a campanhas questionadas por elo criminoso
Levantamento identificou R$ 21,6 milhões destinados a 20 candidatos citados em ações do Ministério Público ou decisões eleitorais.

Nove partidos destinaram ao menos R$ 21,6 milhões de recursos públicos a campanhas de 20 candidatos apontados pelo Ministério Público Eleitoral ou por tribunais regionais em processos que mencionam vínculos com organizações criminosas.
A Folha de S.Paulo publicou o levantamento nesta segunda-feira (28). Decisões divulgadas pelo TRE-RJ confirmam indeferimentos por associação com organizações criminosas, enquanto o Ministério Público Federal já havia orientado os partidos a criar filtros contra a infiltração desses grupos.
Os valores vieram dos fundos eleitoral e partidário e alcançaram candidaturas ligadas, segundo os processos citados, a facções, milícias, jogo do bicho ou esquemas de fraude administrativa. A relação inclui casos em diferentes fases e não equivale a uma condenação criminal definitiva.
Alguns registros foram indeferidos, outros receberam decisão favorável e parte dos recursos ainda será julgada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Candidatos e partidos ouvidos negaram irregularidades, afirmaram cumprir a legislação ou disseram aguardar a conclusão dos processos.
Recursos seguem regras partidárias
O Fundo Especial de Financiamento de Campanha distribuiu aproximadamente R$ 4,9 bilhões entre as legendas em 2026. Depois do repasse, cada direção partidária aplica critérios internos para dividir os recursos entre seus candidatos, respeitando limites e destinações obrigatórias.
Dados de arrecadação e gastos ficam disponíveis no DivulgaCandContas, sistema da Justiça Eleitoral. A publicidade das informações permite cruzar transferências partidárias com decisões judiciais, impugnações e manifestações do Ministério Público.
A legislação pode permitir que um candidato continue em campanha enquanto recorre de um indeferimento. Por isso, a existência de questionamento judicial não bloqueia automaticamente todos os repasses, e uma decisão posterior pode alterar a situação do registro.
Esse intervalo cria risco político e financeiro. Se a candidatura for barrada ao final, parte do dinheiro já terá sido usada em propaganda, estrutura e pessoal. Se for liberada, o candidato terá exercido um direito previsto enquanto o recurso estava pendente.
Integridade exige prova e defesa
O MP Eleitoral recomendou certidões criminais, protocolos de integridade e análise do histórico social e patrimonial dos filiados. O objetivo declarado é impedir que facções e grupos paramilitares usem partidos e campanhas para ampliar influência institucional.
O TRE-RJ informou ter indeferido registros com base no artigo constitucional que proíbe organizações paramilitares e estruturas semelhantes. Entre os casos divulgados oficialmente, há referências a associação criminosa e ao conceito de milícia de gravata.
A prevenção não autoriza transformar suspeita em culpa. Cada processo precisa identificar a conduta atribuída, permitir contraditório e distinguir vínculo comprovado de contato circunstancial. A mesma cautela deve orientar a divulgação dos nomes e a análise dos repasses.
O TSE ainda poderá modificar decisões regionais antes da votação. Até lá, o dado central permanece: dinheiro público chegou a campanhas submetidas a questionamentos relevantes, e partidos precisam explicar quais filtros aplicaram sem antecipar condenações que a Justiça ainda não confirmou.
Em resumo
O levantamento apontou ao menos R$ 21,6 milhões destinados às campanhas analisadas.
Foram identificados 20 candidatos com questionamentos do Ministério Público ou da Justiça Eleitoral.
Nove legendas distribuíram os recursos, conforme o levantamento publicado.
Não necessariamente. Há casos em fases diferentes, com decisões recorríveis e negativas de irregularidade.
O órgão recomenda certidões, protocolos de integridade e análise do histórico dos pré-candidatos.