Mensagens indicam que Vorcaro consultou Moraes sobre risco de prisão dois dias antes de ser detido
Relatório da Polícia Federal registra perguntas atribuídas a Daniel Vorcaro sobre eventual saída do país e o avanço da Operação Compliance Zero; Moraes já contestou anteriormente a atribuição de um dos contatos usados nas conversas.

Mensagens recuperadas pela Polícia Federal no âmbito da investigação sobre o Banco Master indicam que Daniel Vorcaro consultou um interlocutor atribuído pelos investigadores ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, sobre o risco de prisão e a possibilidade de deixar o Brasil nos dias imediatamente anteriores à sua detenção. O conteúdo veio a público nesta terça-feira, 1º de setembro, em reportagens baseadas no material periciado pela PF.
Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes da prisão, Vorcaro perguntou se na segunda-feira já deveria estar fora do país. No dia seguinte, segundo as mensagens divulgadas, voltou a questionar sobre a possibilidade de a operação ocorrer pela manhã e buscou uma leitura sobre os movimentos das autoridades. A prisão ocorreu em 17 de novembro no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando o então controlador do Master se preparava para embarcar em um jato particular.
Mensagens antecederam a prisão
O material analisado pela PF mostra que a preocupação de Vorcaro cresceu durante aquele fim de semana. As conversas mencionam o juiz federal Ricardo Augusto Soares Leite, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Parte das respostas atribuídas ao interlocutor não pôde ser recuperada porque teria sido enviada em formato de visualização única.
Naquele momento, Vorcaro também trabalhava em uma negociação para transferir o controle do Banco Master. A operação policial e, posteriormente, a liquidação da instituição pelo Banco Central mudaram o curso dessas tratativas. A investigação da Compliance Zero apura suspeitas de fraudes envolvendo operações financeiras do banco.
Identificação do interlocutor é ponto central
A atribuição das mensagens a Moraes é um dos aspectos mais sensíveis da apuração. Reportagens informam que investigadores relacionaram o interlocutor ao ministro a partir do conjunto de dados obtidos no telefone e de outros elementos examinados no inquérito. Moraes, entretanto, já havia afirmado anteriormente que um contato associado a conversas vazadas com Vorcaro não era dele.
Essa ressalva é relevante porque a perícia e a identificação formal dos participantes das conversas são essenciais para qualquer conclusão jurídica. A divulgação de mensagens isoladas, por si só, não estabelece a prática de crime nem permite determinar o teor das respostas que não foram recuperadas.
Mendonça leva material à PGR
O ministro André Mendonça, relator de procedimentos relacionados ao caso Master no STF, encaminhou à Procuradoria-Geral da República material produzido pela Polícia Federal e pediu manifestação sobre as descobertas. Mendonça também solicitou ao presidente da Corte, Edson Fachin, a realização de sessão para discutir as informações encontradas pelos investigadores.
A revelação provocou repercussão política e institucional em Brasília. A Ordem dos Advogados do Brasil defendeu apuração rigorosa e imparcial, ao mesmo tempo em que ressaltou garantias como devido processo legal, ampla defesa e presunção de inocência.
As investigações continuam e caberá às autoridades responsáveis determinar a autenticidade integral das conversas, identificar os interlocutores e estabelecer se houve alguma interferência indevida no trabalho dos órgãos de investigação. Até que essas etapas sejam concluídas, as mensagens devem ser tratadas como elementos de uma apuração em curso, e não como prova definitiva de responsabilidade.
Fontes consultadas: Folha de S.Paulo, UOL, SBT News e informações públicas sobre a Operação Compliance Zero.