Fundador da Petz vai ao palco, chama Moraes de xerife e avisa: se anular a prova, a rua é o caminho
Sergio Zimerman classificou as mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro como estarrecedoras, criticou o pedido da PGR para anular o relatório da PF e foi aplaudido de pé em São Paulo. A Folha gravou, publicou e enfiou o desabafo na editoria de Mercado.

Na tarde de quarta-feira (2), no Fórum Negócios Brasil, em São Paulo, o fundador da Petz não falou de ração nem de Selic. Sergio Zimerman, presidente do conselho do Grupo Petz Cobasi e um dos ‘sharks’ do Shark Tank Brasil, fechou a participação ao lado de Carol Paiffer e José Carlos Semenzato com um recado direto ao Supremo e à PGR.
As conversas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, extraídas do celular do banqueiro pela Polícia Federal, foram classificadas por ele como ‘estarrecedoras’. O alvo da frase não era um desafeto qualquer. Era, nas palavras do empresário, ‘quem é praticamente o grande xerife do Brasil’.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, também citado no relatório, pediu a anulação do documento. Argumento: André Mendonça não tinha competência para mandar aprofundar a apuração sobre o colega de toga. Zimerman leu o movimento sem eufemismo. Se o que importa deixa de ser o que foi feito e passa a ser o rito de quem mandou investigar, o país já conhece o final.
‘Quer dizer que não interessa o que foi feito, mas que não podia ser feito daquela forma?’ A plateia entendeu a referência. Processos anulados, condenações desfeitas, o mesmo país que já viu prova sumir porque o caminho processual desagradou quem estava no alvo.
Aí veio a frase que a Folha gravou e o X espalhou:
‘Se acontecer de não dar em nada, vamos para a rua. Vamos para a rua acabar com a sem-vergonhice. Estão roubando o Brasil.’
Foi aplaudido de pé.
O que a grande imprensa fez com o fato
A Folha publicou o vídeo e a matéria nesta quinta (3), com o título ‘Se não der em nada, vamos para a rua, diz fundador da Petz após mensagens de Vorcaro a Moraes’. Autoria: Darlan Alvarenga. Editoria: Mercado. Não Poder. Não capa. Mercado.
O jornal que, no mesmo ciclo, publicou editorial dizendo que ‘a Moraes cabe a renúncia’ tratou o empresário que pede rua contra a ‘sem-vergonhice’ como nota de evento corporativo. O verbo é ‘diz’. Não é ‘cobra’, ‘alerta’, ‘convoca a sociedade’. É o fundador da Petz que ‘diz’.
Estadão, Globo e Veja não transformaram o desabafo em manchete nacional até o fechamento desta edição. O volume da semana ficou no relatório da PF, no parecer de Gonet e no silêncio de Lula. Zimerman entrou pelo atalho do vídeo. A frase existe porque a Folha filmou. O enquadramento existe porque a Folha escolheu a prateleira.
O caso espelho
Inverta o palco. Um empresário de esquerda sobe no mesmo fórum, chama um ministro indicado por Bolsonaro de xerife, aponta contrato milionário da mulher do magistrado com um banco liquidado e convoca a rua se a PGR mandar rasgar o relatório. A Folha não deixa isso em Mercado. Vira Poder, vira ‘sociedade civil reage’, vira ‘defesa da República’.
Em 8 de janeiro de 2023, o mesmo jornal foi buscar empresário para ‘cobrar reação’ e ‘punir exemplarmente’. Entidade patronal virou voz da normalidade democrática. Quem chamou vândalo de vândalo ganhou coluna. Quem, anos depois, chama sem-vergonhice de sem-vergonhice ganha um ‘diz’ e um selo de varejo.
Quando Luciano Hang e outros nomes do empresariado bolsonarista falaram em rua ou em intervenção, o verbo mudou de novo: golpe, lesa-pátria, risco às instituições. A rua da esquerda é cidadania. A rua da direita é ameaça. A rua de um tubarão do Shark Tank, no meio de São Paulo, ainda não tem nome. Por isso foi para Mercado.
Quem tem interesse no silêncio
Gonet precisa que o relatório morra na forma, não no conteúdo. Moraes precisa que o debate vire competência de relator, não contrato de R$ 131 milhões, mensagem ‘acha que segunda já tenho que estar fora?’ e pedido para ‘segurar’ Andrei e Paulo. O Planalto precisa que empresário irritado continue sendo pauta de pet shop. A Folha precisa publicar o vídeo para não perder o furo e, ao mesmo tempo, não transformar um convite à rua contra o xerife do STF no eixo da edição.
Zimerman não é santo da política. É dono de rede, homem de Faria Lima, figura de programa de TV. Justamente por isso o desabafo pesa. Não saiu de gabinete de deputado. Saiu de um fórum de negócios, com plateia que geralmente prefere Selic, fusão e governança. Essa plateia bateu palma em pé quando ouviu que estão roubando o Brasil.
A regra que deveria valer para os dois
Chamar o país à rua contra anulação de prova não é golpe quando o alvo veste toga, do mesmo modo que não foi cidadania automática quando o alvo era o adversário do jornal. Se o relatório da PF descreve proximidade, contrato e pedido de proteção, o mérito existe com ou sem o carimbo de Mendonça. Anular o papel não apaga a mensagem. Apaga o julgamento.
Se acontecer de não dar em nada, o fundador da Petz já disse o que pretende fazer. A Folha gravou. Cabe agora à mesma imprensa decidir se ‘vamos para a rua’ é frase de empresário ou fato político. A régua, desta vez, está no próprio vídeo.
Em resumo
O fundador da Petz, Sergio Zimerman, classificou como estarrecedoras as mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro reveladas pela PF e disse que, se o caso não der em nada, a população deve ir às ruas acabar com o que chamou de sem-vergonhice.
Sergio Zimerman, Alexandre de Moraes, Daniel Vorcaro, André Mendonça, Paulo Gonet, a Polícia Federal, a PGR e a Folha de S.Paulo aparecem no episódio.
O discurso ocorreu no Fórum Negócios Brasil, em São Paulo, durante participação de Zimerman ao lado de Carol Paiffer e José Carlos Semenzato.
O discurso foi feito em 2 de setembro de 2026 e a Folha publicou vídeo e reportagem em 3 de setembro de 2026.
A fala levou para fora do circuito político a reação ao relatório da PF e ao pedido da PGR para anular a investigação sobre as conversas atribuídas a Moraes e Vorcaro.
O debate segue no STF em torno da validade da apuração e de seus desdobramentos, enquanto a repercussão política das mensagens e da reação de empresários continua.